Ameaça climática ao campo brasileiro
A confirmação de um El Niño de forte intensidade em 2026 acende um sinal de alerta para o agronegócio nacional. Em um momento em que o setor enfrenta desafios estruturais, como custos elevados e o peso das dívidas, a instabilidade climática surge como o principal fator de risco para a produtividade. Segundo o pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Eduardo Assad, o fenômeno possui potencial para reduzir em até 10% a colheita total de grãos no país.
A preocupação central reside na intensidade do evento meteorológico. Modelos climáticos da NOAA, nos Estados Unidos, e de institutos europeus apontam uma probabilidade superior a 90% de que o episódio seja classificado como forte ou superforte. Enquanto um El Niño forte apresenta anomalias de temperatura na superfície do Pacífico entre 1°C e 1,5°C, eventos acima de 2°C são categorizados como superfortes, elevando drasticamente a imprevisibilidade das chuvas.
Histórico de perdas e projeções para 2026
O histórico recente reforça a vulnerabilidade da agricultura brasileira diante de eventos extremos. Nos últimos dez anos, o país enfrentou três episódios severos que impactaram diretamente o rendimento das lavouras. A safra 2023/24 é um exemplo marcante, onde as perdas em soja e milho oscilaram entre 7% e 10%, causadas majoritariamente por períodos prolongados de seca que atingiram o Norte, Nordeste e Sudeste.
Para a safra 2025/26, a estimativa de produção gira em torno de 320 milhões de toneladas de soja e milho. Caso a previsão de uma queda de 10% se concretize, o prejuízo pode chegar a 32 milhões de toneladas. Assad ressalta que o aumento projetado de 1,5% na área plantada não será suficiente para compensar as perdas causadas por um clima adverso, evidenciando que a produtividade por hectare é o fator determinante para a viabilidade econômica do ciclo.
Adaptação e resiliência no sistema produtivo
Embora tecnologias voltadas à mitigação de riscos climáticos existam há décadas, sua implementação exige um planejamento de longo prazo, que pode levar de três a quatro anos. Práticas como o aprofundamento do sistema radicular, a manutenção de cobertura permanente do solo e o plantio direto de qualidade são fundamentais para aumentar a resiliência das culturas. Além disso, sistemas como a Integração Lavoura-Pecuária (ILP) e a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) têm se mostrado eficazes.
Dados comparativos indicam que produtores que adotaram medidas sustentáveis conseguiram reduzir o impacto das perdas para cerca de 15%, enquanto propriedades sem esse preparo registraram quedas superiores a 25% em eventos extremos. Para Assad, a adaptação da agricultura precisa ganhar celeridade, utilizando o seguro rural como ferramenta de proteção financeira e o Código Florestal como aliado na estruturação de um sistema produtivo mais robusto.
O cenário exige que o setor deixe de tratar o clima como um fator externo imprevisível e passe a integrá-lo ao planejamento estratégico de cada safra. Acompanhe as atualizações sobre o impacto do clima no agronegócio e as análises sobre o desenvolvimento da safra aqui no Conexrs, seu portal de referência para informações relevantes e contextualizadas sobre o Brasil.
Fonte: canalrural.com.br
