Dívidas rurais: produtor gaúcho questiona viabilidade econômica de nova medida do governo

Dívidas rurais: produtor gaúcho questiona viabilidade econômica de nova medida do governo

Geral

A realidade do campo frente à Medida Provisória 1.376

A recente publicação da Medida Provisória 1.376, que estabelece diretrizes para a renegociação de dívidas rurais, trouxe um alívio imediato para lideranças do setor agropecuário, mas encontrou resistência entre quem lida diretamente com as consequências das intempéries climáticas. No Rio Grande do Sul, estado marcado por sucessivos episódios de estiagens e inundações severas, a percepção de muitos produtores é de que as soluções propostas pelo governo federal ainda não alcançam a complexidade da crise financeira enfrentada pelas propriedades.

Lucas Scheffer, produtor rural no município de Cacequi, tornou-se um símbolo dessa insatisfação ao expor, em depoimento, a fragilidade dos cálculos que sustentam o novo modelo de repactuação. Para ele, a carência de dois anos oferecida pela MP é insuficiente diante do passivo acumulado. O agricultor argumenta que o prazo de 10 anos para a quitação dos débitos cria uma pressão financeira que compromete a própria viabilidade operacional da lavoura.

O peso da matemática na produção de soja

Ao analisar a estrutura de custos, Scheffer aponta que a conta não fecha para o produtor médio. Segundo seus cálculos, cerca de 40% dos agricultores gaúchos carregam uma dívida média de 140 sacas de soja por hectare. Ao diluir esse montante em uma década, o produtor precisaria destinar 14 sacas anuais apenas para o serviço da dívida. Somando esse valor aos custos operacionais de implantação, que giram em torno de 40 sacas por hectare, o agricultor chega a um custo fixo de 54 sacas por hectare.

Essa margem deixa pouco espaço para manobras financeiras, como a renovação de frota, investimentos em tecnologia ou a manutenção básica da infraestrutura rural. O produtor enfatiza que, mesmo em safras de alta produtividade — como a registrada em 2020/21, quando o estado atingiu a média de 60 sacas por hectare —, a margem de lucro seria corroída pelo peso dos compromissos financeiros, tornando a recuperação do setor um desafio de longo prazo.

O impasse das garantias e o Fundo Garantidor

Outro ponto de atrito reside na exigência de garantias para o refinanciamento. Muitos produtores, após anos de renegociações sucessivas, já comprometeram boa parte de seu patrimônio e das garantias reais disponíveis. Scheffer questiona como será possível acessar o crédito do Plano Safra 2026/27 se o patrimônio já está vinculado às dívidas antigas, criando um ciclo de dependência que trava novos investimentos.

Para tentar destravar esse cenário, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) destaca que a MP incorpora o Fundo Garantidor. Com um aporte previsto de até R$ 2 bilhões, o mecanismo busca mitigar o risco para as instituições financeiras, permitindo que produtores sem garantias suficientes consigam alongar seus débitos ou obter novos financiamentos. O benefício é voltado para operações com perdas registradas entre 2019 e 2025, além de dívidas inadimplentes ou prorrogadas até maio de 2026.

O cenário permanece em aberto, com o setor produtivo aguardando para ver se o aporte do governo será suficiente para reverter a crise de liquidez no campo. O Conexrs segue acompanhando os desdobramentos desta medida e seus impactos reais na economia regional e nacional. Continue conosco para se manter informado com análises aprofundadas sobre os temas que movem o Brasil.

Fonte: canalrural.com.br