O agronegócio brasileiro consolidou-se nas últimas décadas como um pilar fundamental da economia nacional, impulsionado por avanços exponenciais em tecnologia, ciência e sustentabilidade. Contudo, essa trajetória de sucesso produtivo não foi acompanhada por uma estratégia de comunicação equivalente. Segundo Ricardo Nicodemos, presidente da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro (ABMRA), o setor enfrenta um paradoxo: sua própria magnitude o tornou, em certa medida, invisível para o cotidiano da população urbana.
Durante sua participação no videocast Radar Rural, do Canal Rural, Nicodemos pontuou que o setor tem falhado ao dialogar majoritariamente com seus próprios pares. Essa comunicação interna, embora eficiente para o intercâmbio técnico, cria um vácuo de informação que acaba preenchido por mitos, estereótipos e visões distorcidas sobre a realidade da produção de alimentos no Brasil.
A armadilha da comunicação reativa e o distanciamento urbano
Um dos pontos centrais da análise de Nicodemos é a postura reativa adotada por muitos agentes do agronegócio. Historicamente, o setor tende a se manifestar apenas quando é alvo de críticas ou informações imprecisas, recorrendo a notas de repúdio ou posicionamentos defensivos. Para o especialista, essa estratégia é insuficiente, pois a construção de uma reputação sólida exige um trabalho contínuo, independente de crises.
O distanciamento entre o campo e a cidade reflete-se na falta de conhecimento básico sobre a origem dos alimentos. Pesquisas citadas pelo presidente da ABMRA revelam que parte expressiva da população urbana desconhece processos produtivos simples, como o cultivo de hortaliças. Essa lacuna de conhecimento é o terreno fértil onde florescem narrativas contrárias ao setor, que ganham força especialmente entre o público jovem nas redes sociais.
O paradoxo da presença e a necessidade de novas narrativas
O agro está presente em quase todas as esferas da vida brasileira, da mesa dos cidadãos à cultura popular, como na música sertaneja. No entanto, essa onipresença não se traduz em reconhecimento. Nicodemos argumenta que, de tão grande, o setor tornou-se invisível, perdendo a oportunidade de humanizar a figura do produtor rural. A imagem ainda vinculada a estereótipos de atraso, como o folclórico Jeca Tatu, ignora a realidade de um campo altamente tecnológico e gerido por profissionais conectados.
Para reverter esse cenário, o especialista defende que o setor precisa assumir o protagonismo de sua própria história. Isso envolve compartilhar as conquistas das últimas cinco décadas — período em que o Brasil deixou de ser importador para se tornar uma potência exportadora — e mostrar o produtor como um agente de inovação e superação. A meta é construir uma ponte sólida com a sociedade, tornando-a menos suscetível a desinformações.
Estratégias para uma comunicação integrada
A solução proposta por Nicodemos passa pela diversificação dos canais de comunicação. Embora o ambiente digital ofereça alcance e velocidade, ele também é marcado pela dispersão e pela ausência de filtros. Por isso, o uso estratégico da mídia especializada, aliado a veículos tradicionais, é visto como essencial para conferir credibilidade e contexto às informações que chegam ao grande público.
O desafio para os próximos anos é transformar essa comunicação em um esforço coletivo e permanente. Ao ocupar o espaço público com fatos e histórias reais, o agronegócio pode reduzir a distância entre a porteira e a cidade, garantindo que a sociedade compreenda o papel vital do setor no desenvolvimento do país. Acompanhe o Conexrs para mais análises sobre os rumos do agronegócio e os temas que impactam o Brasil e a nossa economia.
Fonte: canalrural.com.br
