Uma descoberta científica realizada em pomares paulistas promete transformar o manejo do cancro cítrico, uma das doenças mais devastadoras para a citricultura brasileira. Pesquisadores identificaram uma linhagem de vírus, conhecida como bacteriófago P27, capaz de eliminar a bactéria Xanthomonas citri, agente causador das manchas que comprometem a qualidade e a produtividade de laranjas, limões e tangerinas.
O estudo, publicado na revista científica Microbial Genomics, é fruto de uma colaboração estratégica entre a Universidade Estadual Paulista (Unesp), o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) e a Universidade Metropolitana de Manchester, no Reino Unido. Os resultados iniciais em ambiente controlado apontam uma redução de até 60% nas lesões provocadas pela infecção bacteriana nas plantas tratadas.
Potencial biotecnológico contra a bactéria
Os bacteriófagos são vírus que possuem a capacidade natural de infectar e destruir bactérias específicas sem causar danos a outros organismos do ecossistema. Essa característica torna o P27 um candidato ideal para o desenvolvimento de biopesticidas mais sustentáveis, alinhados com a demanda global por práticas agrícolas que reduzam a dependência de defensivos químicos, como os compostos à base de cobre.
Entre 2018 e 2021, a equipe de cientistas realizou uma varredura em 12 propriedades rurais no estado de São Paulo, isolando 72 variedades de vírus. O P27 foi selecionado após rigorosa avaliação de sua estabilidade genética, capacidade de infecção e eficácia na degradação das estruturas bacterianas. Segundo Caio Zamunér, pesquisador da Unesp, o sucesso alcançado em casa de vegetação comprova a viabilidade do vírus em destruir a Xanthomonas citri diretamente no tecido vegetal.
Desafios para a aplicação em campo
Apesar do otimismo, a transição da bancada do laboratório para o campo exige a superação de obstáculos técnicos. O principal desafio identificado pela equipe é a alta sensibilidade dos bacteriófagos à radiação ultravioleta. Testes mostraram que a exposição direta à luz solar pode inativar os vírus em poucos minutos, o que inviabilizaria sua eficácia caso fossem aplicados sem proteção.
Para contornar essa limitação, os pesquisadores já trabalham no desenvolvimento de formulações que funcionem como uma blindagem para os fagos, protegendo-os contra a radiação solar ao serem aplicados nas folhas. A estratégia de longo prazo envolve a integração do uso de vírus com doses reduzidas de cobre, criando um sistema de controle mais eficiente e menos agressivo ao meio ambiente.
Uniformidade genética e resistência
Um dado relevante da pesquisa é a alta similaridade genética das bactérias encontradas no estado de São Paulo. Dos 122 linhagens de Xanthomonas citri testadas, a grande maioria demonstrou suscetibilidade ao tratamento. Essa uniformidade facilita o desenvolvimento do controle biológico, pois permite que uma única linhagem de vírus, como o P27, seja eficaz contra a maior parte da população bacteriana existente nos pomares.
Embora 21 linhagens tenham apresentado resistência ao tratamento, os cientistas acreditam que se trata de um mecanismo de regulação temporária da própria bactéria, e não de uma alteração genética permanente. O monitoramento contínuo dessas interações é fundamental para garantir que o uso dos fagos permaneça como uma ferramenta de controle duradoura para os produtores rurais.
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Fonte: canalrural.com.br

