Um ambicioso projeto de resgate histórico ganha forma em uma oficina localizada no bairro Humaitá, na Zona Norte de Porto Alegre. Um colecionador está dedicando tempo e técnica para restaurar 46 aeronaves militares compradas em leilões de forças armadas e de outros proprietários particulares. O acervo impressionante reúne aviões e helicópteros que participaram de conflitos internacionais e de missões estratégicas, com a proposta de formar um museu inédito na capital gaúcha com abertura prevista para este ano.
As peças chegam ao Rio Grande do Sul vindas de instituições como a Força Aérea Brasileira (FAB) e a Marinha, muitas vezes em estado avançado de desgaste ou danificadas por acidentes. O trabalho minucioso envolve técnicas avançadas de chapeação, solda e pintura veicular para devolver a identidade visual e estrutural aos veículos. Mais do que uma exposição estática, a iniciativa busca transformar máquinas de guerra em artefatos educativos para o público.
História de conflitos globais na Zona Norte
Entre os destaques da coleção está um helicóptero modelo H-1H, fabricado nos Estados Unidos e amplamente utilizado durante a Guerra do Vietnã. A fuselagem da aeronave ainda preserva marcas visíveis de combates e missões de suporte. O modelo ficou conhecido internacionalmente pela versatilidade em operações de resgate aeromédico, transporte de tropas, lançamento de medicamentos e incursões táticas.
A oficina também abriga duas aeronaves modelo P-95 que integraram as operações da Guerra das Malvinas, conflito travado entre abril e junho de 1982. Segundo o restaurador e colecionador Luciano Schneider, presidente da Associação Cultural de Preservação Patrimônio Histórico Militar, o acervo possui documentação detalhada sobre o histórico de patrulhamento marítimo cedido à armada argentina durante o período bélico.
Superação de desafios na recuperação de caças e cargueiros
O processo de restauração exige soluções engenhosas devido ao tamanho e à complexidade dos equipamentos. Um dos maiores desafios foi a recuperação de um caça F-5 envolvido em um acidente em 5 de julho de 2016, na Base Aérea de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Após uma falha no trem de pouso, a tripulação ejetou-se com segurança, mas a estrutura caiu em uma área de campo.
Por se tratar de armamento de uso militar, o F-5 precisou ser seccionado para viabilizar o transporte rodoviário até o Rio Grande do Sul. Na oficina, a equipe realizou a soldagem das partes e o acabamento estético. Outro marco do projeto é a recuperação parcial de um Douglas C-47, avião utilizado pelos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial para o lançamento de paraquedistas e posteriormente incorporado pela Força Aérea Brasileira (FAB), cujo painel e cabine foram salvos antes da destruição total.
Expectativa de abertura para o público gaúcho
A transformação da oficina em um espaço de visitação pública representa a realização de um sonho de infância para o idealizador do projeto. A proposta é expor as aeronaves com foco puramente demonstrativo, permitindo que visitantes examinem de perto veículos que marcaram época na aviação militar e na geopolítica mundial.
A iniciativa conta com o apoio de coberturas jornalísticas locais que acompanham o avanço das obras na capital. Para o colecionador, mexer diariamente com engrenagens, manetes e fuselagens é uma forma lúdica de reescrever o passado e honrar a memória de quem operou essas máquinas em solo e no ar.

