O mercado de ativos digitais registrou mais um episódio de forte volatilidade e polêmica com o encerramento relâmpago de um projeto de criptomoeda. Lançado com a proposta de bonificar usuários que compartilhassem conteúdos de apoio político, o ativo acumulou uma queda drástica de 86% em seu valor na comparação com o pico registrado dias antes.
A iniciativa, identificada como B22, chegou ao mercado com uma estratégia de ampla exposição nas redes sociais, mas teve vida curta diante de questionamentos jurídicos e pressão institucional. A interrupção das atividades ocorreu apenas uma semana após o surgimento público do projeto, que tentou surfar na onda da disputa eleitoral.
Estratégia digital e envolvimento internacional
O funcionamento da moeda digital baseava-se em um sistema de recompensas voltado para simpatizantes que impulsionassem mensagens favoráveis a Flávio Bolsonaro (PL). Para dar tração à campanha virtual, os organizadores utilizaram a imagem do Hypers Kids Africa, um grupo artístico formado por crianças e jovens de Uganda que gravou vídeos com menções ao voto no candidato.
A narrativa inicial utilizada pelos criadores sentenciava que parte dos recursos arrecadados seria revertida para a construção de uma nova moradia para o grupo ugandense. No entanto, a associação entre o mercado cripto e a propaganda eleitoral gerou reações imediatas nos bastidores da política nacional e entre autoridades competentes.
Repercussão jurídica e investigações no tribunal
A repercussão do caso mobilizou o meio jurídico e os principais concorrentes no pleito. A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acionou formalmente o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para contestar a validade da iniciativa, apontando possíveis irregularidades na veiculação de propaganda paga disfarçada de transação financeira.
Em resposta à movimentação jurídica, a ministra Estela Aranha determinou a retirada do site oficial do ar e ordenou a suspensão imediata de qualquer recompensa financeira ligada à publicação de conteúdos eleitorais. Paralelamente, a defesa de Flávio Bolsonaro negou qualquer tipo de ligação oficial com os criadores da criptomoeda e indicou que adotaria medidas legais para resguardar a imagem da campanha.
A investigação ganhou novos desdobramentos quando o ministro Ricardo Villas Bôas Cueva abriu um procedimento para apurar a atuação conjunta de figuras públicas e do ativo digital na estratégia de visibilidade online, estipulando prazos para a apresentação de esclarecimentos formais pelas partes envolvidas.
Recuo dos criadores e pedido de desculpas
Com o cerco regulatório e o avanço das apurações, os responsáveis decidiram descontinuar o projeto e removeram o conteúdo anterior do endereço eletrônico, substituindo-o por um comunicado em formato de vídeo. Na gravação, os idealizadores reconhecem que a escolha de atrelar o ativo à disputa política foi uma tentativa deliberada de ganhar notoriedade rápida.
Os realizadores argumentaram que a intenção não era corromper o processo eleitoral, mas assumiram que a abordagem gerou um desgaste imensificado. “Usamos o momento do jeito errado e pedimos desculpas”, declarou a narração do material veiculado aos investidores.
O grupo Hypers Kids Africa também buscou se distanciar da polêmica ao anunciar a devolução de milhões de unidades do ativo recebidas durante a parceria e reiterar o foco em sua atuação artística e social. Acompanhe mais atualizações sobre economia, política e tecnologia no ConexRS, seu portal de referência para notícias contextualizadas e apuração rigorosa.
Fonte: redir.folha.com.br

