A crise política que atravessa a cúpula do futebol mundial ganhou contornos mais definidos nesta semana. Em uma manobra estratégica de duas frentes, a Fifa, presidida por Gianni Infantino, intensificou o embate jurídico contra a Uefa enquanto sinaliza uma mudança de postura em relação ao uso de suas vultosas reservas financeiras para atender às demandas das confederações continentais.
Confronto jurídico e diplomacia de bastidores
O cenário de tensão foi acentuado pela resposta agressiva da entidade máxima do futebol ao processo movido pela Uefa nos Estados Unidos. Em documentos oficiais, a Fifa classificou as acusações lideradas por Aleksander Ceferin como uma “campanha de desinformação”, sustentando que as medidas judiciais tomadas pela confederação europeia possuem caráter de “má-fé” e visam apenas o assédio institucional.
Paralelamente ao embate nos tribunais, Infantino adotou um tom significativamente mais conciliador em uma carta enviada aos presidentes das seis confederações continentais. Ao dirigir-se nominalmente aos líderes, o dirigente suíço indicou que a proposta de utilizar parte do fundo de reserva da entidade — estimado em cerca de US$ 6 bilhões — para irrigar o desenvolvimento do futebol nas 211 federações nacionais é viável e será pautada para discussão no Conselho da Fifa em 15 de outubro.
A pressão por recursos e o peso das eleições
A demanda pelo uso de aproximadamente US$ 2,1 bilhões das reservas partiu de uma articulação que incluiu o próprio Ceferin e Victor Montagliani, da Concacaf. Embora Infantino não tenha se comprometido com valores exatos, a abertura para o debate ocorre em um momento político sensível, com as eleições presidenciais da Fifa marcadas para 18 de março e o prazo de inscrições encerrando-se em 18 de novembro.
A manobra é vista por analistas como uma forma de neutralizar críticas, uma vez que a sugestão partiu de opositores declarados. Ao atender ao pleito, a gestão de Infantino busca consolidar apoio entre as associações menores, que possuem o mesmo peso de voto que as grandes potências europeias no sistema eleitoral da entidade, garantindo assim a estabilidade necessária para sua permanência no cargo que ocupa desde 2016.
O legado da crise sobre a FFE
O desgaste recente da gestão Infantino foi impulsionado pelo projeto da Fifa Football Enterprise (FFE), uma tentativa de atrair capital privado para a gestão de direitos comerciais de competições como a Copa do Mundo. O plano, que previa uma avaliação de mercado na casa dos US$ 20 bilhões, foi abortado em julho após forte rejeição global, resultando na perda de apoio de federações influentes, como as da Inglaterra e da França.
Apesar da retórica de Ceferin, que recentemente utilizou a fábula “A Nova Roupa do Rei” para criticar a gestão de Infantino, o presidente da Uefa já descartou uma candidatura própria à presidência da Fifa. Enquanto o embate judicial segue seu curso, com a Fifa negando qualquer violação ética ou legal, o futebol mundial observa um jogo de xadrez onde o poder financeiro e a influência política se misturam em uma disputa que definirá os rumos da modalidade nos próximos anos.
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Fonte: noticiasaominuto.com.br
