Evento Intercultural Entre Terras promoveu debates sobre integração, acolhimento, trabalho, saúde mental e perspectivas de futuro
Aprender uma nova língua, adaptar-se a costumes diferentes, fazer amigos, encontrar oportunidades de trabalho e, aos poucos, sentir-se parte de um novo lugar. Para quem migra, reconstruir a vida em outro país envolve mais do que atravessar uma fronteira. São desafios que passam pelas relações, pela identidade, pela família e pela busca por um futuro possível. Foi a partir dessas experiências que jovens, familiares, especialistas e representantes do poder público se reuniram nesta segunda-feira (28), em Porto Alegre, no Evento Intercultural Entre Terras: migração, vínculos e pertencimento, realizado no Auditório do prédio 15 da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). A iniciativa surgiu a partir da escuta, do acompanhamento e do acolhimento realizados pela equipe Psicossocial da Demà Aprendiz junto aos jovens migrantes inseridos no Programa Partiu Futuro Reconstrução. A proposta parte do reconhecimento de que cada processo migratório envolve histórias, afetos, desafios, rupturas, sonhos e a construção de novos vínculos. Atualmente, o projeto acompanha 29 migrantes, residentes em Porto Alegre, Canoas, Novo Hamburgo e Tramandaí, com origens na Argentina, Equador, Haiti e Venezuela. Entre os participantes estava a venezuelana Rossy Emily Barreto Suarez, de 19 anos. Ela chegou ao Brasil aos 11, acompanhada da família, e precisou enfrentar as primeiras dificuldades de adaptação a um país desconhecido. O aprendizado do português e a insegurança para se comunicar fizeram parte dos primeiros anos.
A história de Rossy traduz uma das questões centrais do evento: migrar não significa apenas mudar de território. É também reconstruir vínculos, aprender novos códigos culturais, acessar oportunidades e, aos poucos, desenvolver um sentimento de pertencimento. Nesse processo, o apoio da família foi fundamental para a jovem, especialmente da mãe, que havia chegado ao Brasil antes e contribuiu para sua adaptação.
Morando em Porto Alegre, Rossy já concluiu o ensino médio e trabalha como jovem aprendiz na Secretaria Municipal da Saúde. Para ela, a experiência profissional representa uma etapa importante de amadurecimento e permite colocar em prática os conhecimentos aprendidos na formação teórica, como responsabilidade, organização e convivência profissional. A jovem vê na aprendizagem um espaço de acolhimento para quem, como ela, chegou de outro país.
Cada migração tem uma história
A experiência de Jesus Aaron Marrero, de 14 anos, também mostra como o processo de adaptação acontece no cotidiano. Venezuelano, ele chegou ao Rio Grande do Sul há sete anos e hoje mora em São Leopoldo, onde atua como jovem aprendiz em uma escola municipal. Uma das primeiras barreiras foi aprender uma nova língua.
“No começo, tive um pouco de dificuldade, mas depois fui me acostumando. Aprendi com os colegas, tive professores que falavam espanhol também, e isso foi me ajudando um pouco mais. Acredito que evoluí assim pelo idioma e hoje estou muito feliz por ter a oportunidade de trabalhar”, afirma.
A mãe do jovem, Emmilys Rojas, conhece de perto os desafios dessa reconstrução. Ela deixou a Venezuela com os filhos pequenos em busca de melhores condições econômicas e chegou a um país desconhecido, onde precisou construir uma nova rotina. Durante a trajetória, a família também foi atingida pela enchente que afetou o Rio Grande do Sul em 2024.
“Não é fácil sair do nosso país, sem saber aonde a gente vai. Só pegar uma mala e pronto, vamos embora. Todo imigrante tem uma história. Eu tenho a minha. Cheguei no Brasil com duas crianças pequenas, mas fui bem acolhida. Botei eles na escola, me virei para trabalhar e a vida foi”, diz.
Hoje, ver o filho trabalhando é motivo de orgulho para Emmilys. Ela considera o programa uma oportunidade de aprendizado e autonomia para os jovens migrantes. “O projeto é uma benção na nossa vida. Você começa a trabalhar e ter responsabilidade. E isso é uma oportunidade que a gente tem que aproveitar como imigrante”, celebra.
As histórias compartilhadas durante o encontro também reforçaram a importância de ampliar o debate para além dos próprios jovens e suas famílias. Para o diretor da Demà na Região Sul, Eurico Meira da Costa, a proposta do Entre Terras foi justamente criar um espaço de diálogo sobre acolhimento e integração e, ao mesmo tempo, levar essa discussão a um público mais amplo. “Nosso objetivo é proporcionar que não só os jovens que estão aqui participem de um debate com foco no acolhimento e na integração, mas também que a gente possa passar uma mensagem para o público amplo sobre a importância dessa temática. É uma oportunidade de mostrar que cada migrante tem uma história, desafios e sonhos, e que a sociedade também tem um papel importante na construção de espaços de acolhimento e novas oportunidades”, enfatiza. Migração como oportunidade de transformação
Entre os convidados, o diplomata e chefe do Escritório de Representação do Ministério das Relações Exteriores no Rio Grande do Sul (ERESUL), Marcelo Baumbach, destacou a importância de iniciativas que ampliem o debate e a conscientização sobre a presença dos migrantes na sociedade. “A migração é uma coisa normal e positiva para a sociedade. É comprovado, inclusive pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que a presença dos migrantes aumenta a produtividade, a inovação e traz uma série de benefícios econômicos e sociais.”
Segundo Baumbach, o Rio Grande do Sul e outros estados do Sul têm se destacado no acolhimento e na integração de migrantes, especialmente venezuelanos e haitianos. Para ele, o Estado tem conseguido aproveitar conhecimentos, habilidades e a força de trabalho dessas populações, tornando-se uma referência no contexto brasileiro.
O diplomata também abordou dificuldades enfrentadas pelos jovens durante a adaptação, como o aprendizado do idioma, a compreensão dos costumes locais, a criação de novas relações e a construção de uma rotina. Ao mesmo tempo, ressaltou que a característica multicultural do Brasil pode favorecer esse processo de integração.
O olhar sobre os aspectos subjetivos da migração foi aprofundado pelo professor doutor do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Gabriel Binkowski. Em sua participação, ele destacou que reconstruir a vida em outro país exige conciliar a própria história, a cultura de origem, as expectativas familiares e os sonhos individuais com uma nova realidade. O trabalho psíquico que cada imigrante enfrenta é se imaginar em um novo lugar carregando sua bagagem, pensando nos desafios, naquilo que foi projetado para ele pela família e pela cultura de origem, mas também levando em consideração os próprios sonhos”, salienta.
Para Binkowski, o acolhimento e a convivência são fundamentais para evitar o isolamento e favorecer a construção de novas possibilidades. Estar acompanhado, segundo ele, ajuda o migrante a compreender que os desafios da adaptação não precisam ser enfrentados individualmente. “Quando estamos acompanhados é melhor, e quando nós pensamos acompanhados de forma coletiva é mais interessante ainda. Isso ajuda a entender que não se está sozinho.” Ao final, deixou uma mensagem aos jovens que estão reconstruindo suas trajetórias longe do país de origem: “Se transformar é uma forma de transformar o mundo, e isso é algo muito bonito”, destaca.
Além dos debates, o Entre Terras também proporcionou ao público experiências culturais e gastronômicas inspiradas em diferentes países, reforçando a diversidade das trajetórias presentes no encontro. A programação contou com apresentações de acrobacias do bailarino David Almeida e de salsa com Caio Vedevotto e Amanda Sgarioni. O público ainda teve contato com sabores da culinária venezuelana durante o coffee break.
O Programa Partiu Futuro Reconstrução é realizado pelo Governo do Rio Grande do Sul, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes), em parceria com a Demà Aprendiz, tecnologia social da Renapsi. A iniciativa é destinada a jovens com idade entre 14 e 22 anos, egressos ou matriculados na rede pública de ensino, inscritos no Cadastro Único (CadÚnico) e que foram impactados pelas enchentes de maio de 2024 ou residem em municípios integrados ao Programa RS Seguro.
Crédito das imagens: Eduardo Rocha / Demà Divulgação
Fonte: manual-1790635789862
