Mães endividadas recorrem às apostas online para tentar complementar renda, aponta estudo

Brasil DESTAQUES

Um estudo sobre a relação das mulheres brasileiras com as apostas online revela um fenômeno que vai além do entretenimento: mães endividadas estão recorrendo às bets e aos cassinos virtuais como uma tentativa de aumentar a renda e equilibrar as contas domésticas.

O levantamento “Mulheres & Bets”, realizado pela Clarice em parceria com o Instituto Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa IDEIA, ouviu 2.008 pessoas em uma pesquisa nacional realizada em julho, além de realizar 20 grupos qualitativos com 60 participantes.

Mães apostam mais que mulheres sem filhos

Entre as mulheres entrevistadas, 42% afirmaram que apostam ou já apostaram. Outras 12% disseram nunca ter apostado, mas relatam sofrer consequências relacionadas ao comportamento de parceiros ou familiares. O dado que mais chama atenção é a diferença entre mães e mulheres sem filhos: entre as que apostam, as mães jogam aproximadamente 1,6 vez mais. O estudo indica que, nesse grupo, a motivação está frequentemente associada à necessidade financeira, e não apenas à diversão.

A expansão desse comportamento ganhou força durante a pandemia de Covid-19. Segundo a análise apresentada pelo estudo, muitas mulheres enfrentaram perda de renda, emprego e estabilidade justamente quando as plataformas de apostas passaram a divulgar com intensidade a promessa de ganhos rápidos e dinheiro complementar. De acordo com dados citados na reportagem, o mercado de jogos de azar online movimentou mais de R$ 10 bilhões das famílias brasileiras em 2021, segundo a consultoria H2 Gambling Capital.

Cassinos virtuais preocupam especialistas

Embora as apostas esportivas tenham grande presença entre os homens, especialistas observam que as mulheres apresentam maior participação nos chamados jogos de cassino online, incluindo modalidades com resultados rápidos. O psiquiatra Aderbal Vieira Júnior, ligado ao Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad), da Unifesp, afirma que a expansão das apostas entre mulheres acompanha mudanças na responsabilidade financeira dentro das famílias.

O problema surge quando a aposta deixa de ser encarada como entretenimento e passa a funcionar como uma suposta estratégia de geração de renda. Nesse cenário, perdas podem levar a novas apostas na tentativa de recuperar o dinheiro perdido, criando um ciclo de endividamento, compulsão e agravamento da situação financeira. O especialista ressalta, entretanto, que nem toda pessoa que aposta desenvolve dependência.

Impacto ultrapassa o orçamento familiar

Os relatos reunidos pela pesquisa mostram consequências que podem atingir patrimônio e relações pessoais. Há casos de mulheres que perderam economias acumuladas, comprometeram relacionamentos e chegaram a perder a própria moradia. Um dos relatos citados envolve uma mulher que teria perdido mais de R$ 500 mil entre 2021 e 2023.

O levantamento também coloca em discussão a necessidade de políticas de prevenção voltadas especificamente às mulheres. Para os pesquisadores, combater apenas o comportamento de aposta não é suficiente: é necessário considerar fatores como endividamento, insegurança financeira, perda de renda e pressão para sustentar a família. O estudo defende medidas mais efetivas de prevenção e controle sobre os jogos digitais.

Mercado regulado x plataformas ilegais

Entidades que representam o setor afirmam que as plataformas autorizadas pelo governo possuem mecanismos destinados a impedir o acesso de pessoas com comportamento problemático e argumentam que as empresas legalizadas enfrentam concorrência de sites ilegais, que não arcam com custos de licenciamento e exigências regulatórias.

O cenário coloca as bets no centro de um problema econômico e social: para famílias pressionadas por dívidas, a promessa de dinheiro rápido pode parecer uma solução, mas o risco é transformar uma dificuldade financeira em uma crise ainda maior.

Fonte principal: Folha de S.Paulo, a partir do estudo “Mulheres & Bets”, da Clarice, Estratégia Latina e Instituto IDEIA.