Ministro do TCU cotado por Flávio Bolsonaro atuou na distribuição de livros de Ustra

Ministro do TCU cotado por Flávio Bolsonaro atuou na distribuição de livros de Ustra

Política

O ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Jorge Oliveira, figura apontada como um dos nomes de preferência do senador Flávio Bolsonaro (PL) para uma eventual indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF), possui um histórico de atuação direta na disseminação das ideias do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra entre o círculo de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Oliveira, que é major da reserva da Polícia Militar, ocupou o cargo de ministro da Secretaria-Geral da Presidência entre 2019 e 2020, antes de ser nomeado para o tribunal de contas. Sua trajetória política está profundamente ligada à família Bolsonaro, sendo filho de Jorge Francisco, capitão do Exército que atuou por mais de duas décadas no gabinete de Jair Bolsonaro durante seu período como deputado federal na Câmara.

A logística de distribuição de A Verdade Sufocada

A obra A Verdade Sufocada, livro de memórias no qual o coronel Ustra defende sua atuação durante o período da ditadura militar, tornou-se um símbolo ideológico central para o bolsonarismo. Entre setembro de 1970 e janeiro de 1974, Ustra comandou o DOI-Codi do 2º Exército, em São Paulo, local que se tornou um dos principais centros de tortura do regime e onde o coronel foi posteriormente reconhecido pela Justiça como torturador.

Durante a campanha eleitoral de 2018, Jair Bolsonaro elevou o livro ao status de leitura de cabeceira, utilizando a obra como um instrumento de mobilização política. A viúva do coronel, Joseíta Ustra, desempenhou um papel fundamental na revisão e coedição do material, além de gerenciar a distribuição dos exemplares por anos.

Conforme relatado no livro Poder Camuflado, o então candidato Bolsonaro estabeleceu um canal direto com a viúva para adquirir grandes quantidades da obra. O responsável pela logística de buscar os livros na casa de Joseíta, em Brasília, era justamente Jorge Oliveira. A viúva afirmou que, em uma ocasião, tentou presentear o candidato com caixas do livro, mas Bolsonaro recusou o gesto, insistindo em realizar o pagamento pelo material através de seu emissário.

Contexto político e a relação com o STF

A menção ao nome de Jorge Oliveira para uma possível vaga no STF, ventilada no ambiente político por Flávio Bolsonaro, reacende debates sobre a influência do pensamento militar e a relação do bolsonarismo com o período de exceção no Brasil. A figura de Ustra, homenageada publicamente por Bolsonaro durante a votação do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff em 2016, permanece como um divisor de águas na memória política nacional.

O envolvimento de um ministro do TCU, órgão responsável pela fiscalização contábil e orçamentária da União, em atividades de difusão de uma obra que exalta um torturador condenado pela Justiça, levanta questões sobre o alinhamento ideológico dos quadros que compõem as instituições de controle. A trajetória de Oliveira, da Secretaria-Geral ao TCU, reflete a proximidade estratégica mantida com a cúpula do movimento bolsonarista.

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Fonte: redir.folha.com.br