Suicídio e dependência em apostas virtuais exigem atenção redobrada de profissionais de saúde

Suicídio e dependência em apostas virtuais exigem atenção redobrada de profissionais de saúde

Saúde

O avanço das apostas virtuais, conhecidas popularmente como bets, tem gerado um alerta crescente entre especialistas em saúde mental devido ao sofrimento psíquico relatado por pacientes dependentes. Diante de um cenário de endividamento e isolamento, profissionais defendem a urgência de ações coordenadas para lidar com o impacto dessas plataformas na integridade emocional dos usuários.

Nesta quinta-feira, 10 de setembro, data que marca o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, médicos e psicólogos reforçam que a ideação suicida deve ser abordada de maneira aberta durante os tratamentos. A detecção precoce de sinais de risco é considerada fundamental para evitar desfechos trágicos em indivíduos que perderam o controle sobre o hábito de jogar.

Identificação de sinais de risco e a necessidade do diálogo

Especialistas apontam que pacientes, familiares e amigos devem permanecer atentos a mudanças bruscas de comportamento. Sinais como desesperança, sensação de falta de saída, afastamento social e o aumento no consumo de substâncias como álcool são indicadores de que o indivíduo pode estar em uma situação de vulnerabilidade extrema.

A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti do Hospital das Clínicas de São Paulo, explica que falas relacionadas à morte ou ao desejo de não mais viver precisam ser levadas a sério. Segundo a médica, o manejo adequado desses pensamentos em consultórios e grupos terapêuticos é uma estratégia eficaz para reduzir riscos imediatos.

Muitos pacientes que buscam auxílio para a ludopatia — o desejo incontrolável de jogar — já apresentam quadros de humor deprimido e ansiedade severa. O impacto financeiro devastador das apostas costuma ser o principal gatilho para pensamentos de morte, exigindo uma intervenção multidisciplinar rápida.

Funcionamento biológico da dependência e o sistema de recompensa

O mecanismo de dependência das apostas envolve processos orgânicos complexos no cérebro humano. O neurocirurgião Orlando Maia, que atua no Rio de Janeiro, destaca que a expectativa de ganho estimula a liberação de dopamina, ativando o sistema de recompensa e influenciando áreas responsáveis pela tomada de decisão.

Esse reforço intermitente faz com que o impulso de apostar se torne mais forte do que os mecanismos de controle comportamental. Quando as perdas se tornam frequentes, o indivíduo entra em um ciclo de frustração contínua que pode aprofundar quadros depressivos pré-existentes.

Para combater esse ciclo, o tratamento envolve estratégias que unem medicina, psicologia e atividades físicas. O objetivo é restaurar o equilíbrio neuroquímico e oferecer ao paciente ferramentas para lidar com os estímulos constantes das plataformas digitais.

Consequências do endividamento e o papel do apoio familiar

A dependência em jogos muitas vezes não é reconhecida pelo próprio indivíduo, tornando o papel da família e dos amigos essencial. O adoecimento mental frequentemente caminha junto com o endividamento em cascata, afetando não apenas o apostador, mas todo o seu núcleo social e econômico.

A psicóloga Claudia Feres, que atua em um Centro de Apoio Psicossocial (Caps) no Distrito Federal, relata que muitas tentativas de autoextermínio são, na verdade, pedidos desesperados de socorro. O acolhimento profissional busca integrar a família ao processo terapêutico para construir estratégias coletivas de superação.

Além do suporte clínico, serviços como o Centro de Valorização da Vida (CVV) desempenham um papel crucial na prevenção. O atendimento gratuito pelo telefone 188 oferece um espaço de escuta para quem atravessa momentos de crise emocional severa.

Facilidade de acesso digital e a regulamentação do mercado

Diferente de modalidades tradicionais de jogo, as apostas online estão disponíveis 24 horas por dia diretamente nos dispositivos móveis. A psiquiatra Giovanna Quinet alerta que essa exposição constante, aliada à publicidade agressiva e ao vínculo com esportes, facilita a normalização de comportamentos problemáticos.

O ciclo de risco geralmente começa como entretenimento, mas pode evoluir para a tentativa obsessiva de recuperar perdas financeiras. Esse processo é marcado por segredos, mentiras para familiares, insônia e um profundo sentimento de culpa, que culminam no isolamento do indivíduo.

O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) afirma que, com a regulamentação do mercado em 2025, as empresas autorizadas devem seguir regras rigorosas de proteção ao consumidor. A entidade defende que o enfrentamento ao jogo problemático exige uma atuação coordenada entre o poder público, reguladores e a sociedade civil.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br