Padre critica uso político de símbolos religiosos em missa no Santuário de Aparecida

Padre critica uso político de símbolos religiosos em missa no Santuário de Aparecida

Política

Durante a celebração do dia de Nossa Senhora Aparecida, realizada nesta segunda-feira (12) no Santuário Nacional de Aparecida, no interior de São Paulo, o padre Ferdinando Mancílio proferiu um sermão que ecoou no cenário político nacional. Sem mencionar nomes, o religioso manifestou indignação contra figuras públicas que utilizam a imagem da padroeira do Brasil como instrumento de marketing eleitoral, sem, contudo, professar a fé que o símbolo representa.

O sacerdote foi enfático ao abordar a instrumentalização da fé. “Nossa Senhora vem dizer para nós adultos: chega de mentiras. Chega de quem quer os palácios, mas não quer o coração do ser humano. A gente fica indignado quando se tem uma imagem de Nossa Senhora nas mãos, mas a gente sabe que ela não é amada por quem a segura”, declarou, sob o olhar atento dos fiéis presentes na basílica.

Contexto de tensões e disputas eleitorais

A fala de Mancílio ocorre em um momento de acirramento no debate público, onde a religião tem ocupado um espaço central nas estratégias de campanha. O padre, que já havia se posicionado anteriormente contra ações de parlamentares, como a “marcha a Brasília” liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), reforçou a necessidade de um compromisso real com a justiça e a paz, valores que, segundo ele, deveriam guiar a vocação do povo brasileiro.

A relação entre a fé católica e a política ganhou contornos de crise antes do primeiro turno das eleições. O candidato à Presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, que é evangélico, gerou controvérsia ao prometer “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A declaração desencadeou uma onda de desinformação nas redes sociais, sugerindo erroneamente que o candidato pretendia destituir Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do país.

Repercussão e posicionamento das instituições

A disseminação de notícias falsas sobre o tema forçou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) a se manifestar. A instituição negou qualquer colaboração com partidos políticos e repudiou o uso da mentira como ferramenta de campanha. Em um movimento de tentativa de controle de danos, o senador Flávio Bolsonaro chegou a exibir uma imagem da santa em eventos públicos, embora tenha mantido críticas à postura interna da entidade católica.

O cenário reflete a complexidade da laicidade do Estado brasileiro diante de uma polarização que frequentemente transborda para o campo religioso. Enquanto candidatos buscam o eleitorado cristão, líderes religiosos tentam demarcar a fronteira entre a devoção genuína e o oportunismo eleitoral. A presença de lideranças políticas em missas pelo país nesta data, incluindo o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) em Aparecida e o presidente Lula (PT) em Brasília, ilustra a importância estratégica que o voto religioso assumiu na corrida pelo poder.

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Fonte: redir.folha.com.br