A armadilha da isenção tributária na renda fixa
A busca por rentabilidade livre de tributação tem levado muitos brasileiros a ignorar fundamentos básicos de análise de crédito. O atrativo da isenção de Imposto de Renda (IR) em debêntures incentivadas e fundos de infraestrutura tornou-se um ímã para investidores que, muitas vezes, priorizam o benefício fiscal em detrimento da natureza real do ativo. A percepção comum é de que, por se tratar de renda fixa, o retorno seria estável e previsível, como ocorre em um CDB ou na poupança.
No entanto, gestores alertam que essa visão pode ser perigosa. Ulisses Nehmi, sócio e CEO da Sparta, gestora com mais de R$ 23 bilhões sob gestão, reforça que a volatilidade inerente a esses papéis destoa do perfil conservador tradicional. Ao tratar debêntures como ativos de baixa oscilação, o investidor pode ser surpreendido por movimentos de mercado que fogem ao controle, transformando uma estratégia de preservação de capital em uma fonte de incerteza.
A volatilidade e o efeito da marcação a mercado
As debêntures de infraestrutura são títulos de dívida corporativa emitidos para financiar projetos de longo prazo, como rodovias, saneamento e energia. Por possuírem vencimentos distantes e estarem majoritariamente atreladas ao IPCA, esses ativos são extremamente sensíveis à marcação a mercado. Diferente de um título que o investidor carrega até o vencimento sem olhar a cotação diária, esses papéis são negociados ativamente em um mercado secundário crescente.
Quando a demanda por esses títulos aumenta, o preço sobe e a taxa cai; o inverso ocorre em momentos de estresse. Esse mecanismo, embora natural para traders, assusta o investidor pessoa física que espera uma linha de rendimento constante. Embora o prejuízo seja apenas contábil caso o papel seja mantido até o vencimento, a oscilação diária reflete diretamente na cotação dos fundos de infraestrutura, gerando uma volatilidade que não existe em produtos como LCI ou LCA.
A dinâmica dos fundos de infraestrutura
A volatilidade é amplificada pela estrutura dos fundos de infraestrutura, que possuem exigências regulatórias rigorosas. Após dois anos de criação, esses fundos devem manter até 85% do portfólio alocado em debêntures incentivadas. Essa obrigatoriedade de sobrealocação impede que os gestores reduzam a exposição em momentos de baixa, forçando a manutenção de posições mesmo em cenários adversos.
O crescimento do mercado secundário, que saltou de R$ 87,32 bilhões em 2021 para R$ 346,5 bilhões no ano passado, segundo dados da Anbima, demonstra a maturidade do setor, mas também sua maior exposição a oscilações. Com um giro de negociações que chegou a atingir 70% em 2024, a liquidez aumentou, mas a sensibilidade a choques externos, como crises de crédito ou mudanças na política monetária, tornou-se mais evidente.
Desafios recentes e a realidade do mercado
O ano de 2026 trouxe desafios que testaram a resiliência desses ativos. Crises de confiança envolvendo grandes emissores, somadas a incertezas geopolíticas que impactaram as projeções de juros, penalizaram os preços. Em meses críticos, como março, apenas 5% dos fundos acompanhados pela Empiricus conseguiram superar o CDI, evidenciando que a “renda fixa” pode, sim, entregar retornos negativos no curto prazo.
Esse cenário cria um ciclo de retroalimentação: a queda nos preços gera resgates, o que obriga gestores a venderem ativos, pressionando ainda mais as cotações. Apesar disso, a isenção de IR continua sendo um diferencial poderoso, representando um ganho líquido de cerca de 2,5% em comparação a ativos tributados. Para muitos, o benefício ainda compensa o risco, desde que o investidor compreenda que a estabilidade absoluta não é uma garantia deste mercado.
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Fonte: seudinheiro.com
