A relação do escritor e jornalista Ruy Castro com as palavras começou ainda na infância, quando ganhou sua primeira máquina de escrever aos 5 anos e passou a registrar crônicas cotidianas sobre cinema e futebol. Sete décadas depois, o hábito de apurar fatos com profundidade e reconstituir épocas transformou o autor mineiro em uma das vozes mais respeitadas da literatura brasileira contemporânea.
Aos 78 anos, o escritor alcançou um feito histórico ao conquistar o troféu de Livro do Ano no Prêmio Jabuti pela segunda vez consecutiva. A conquista da 68ª edição da premiação veio com a obra Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio, lançada pela editora Companhia das Letras, que também sagrou-se vencedora na categoria Biografia e Reportagem. No ano anterior, o autor já havia recebido o prêmio máximo com a coletânea O ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim.
Uma trajetória marcada pelo jornalismo e pela paixão pela escrita
Nascido em 1948 na cidade de Caratinga, no interior de Minas Gerais, Ruy Castro cresceu apaixonado pelas salas de cinema, espaço que frequentava diariamente a partir dos 6 anos. Essa convivência precoce com a arte audiovisual moldou sua capacidade visual de descrever ambientes e reconstruir contextos socioculturais em seus trabalhos literários.
Em 1965, mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro para cursar Ciências Sociais na Faculdade Nacional de Filosofia, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Contudo, o ambiente das redações acabou se impondo sobre a carreira acadêmica. Em 1967, aos 19 anos, iniciou sua jornada profissional como repórter no jornal Correio da Manhã.
Ao longo das décadas seguintes, construiu uma carreira sólida passando por importantes veículos de comunicação do país, incluindo Manchete, Jornal do Brasil, Veja, IstoÉ, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e TV Globo. Desde 2007, ele assina uma coluna semanal na Folha de S.Paulo, abordando temas ligados à cultura popular, literatura e história.
A consolidação das grandes obras e a reconstituição histórica
Paralelamente ao trabalho no jornalismo impresso, a convivência intensa com a boemia carioca até os 50 anos ofereceu a Ruy Castro o repertório humano necessário para dar vida aos seus livros. A partir de 1990, ele inaugurou uma fase marcante da não ficção nacional com o lançamento de Chega de Saudade: A História e as Histórias da Bossa Nova, obra que detalhou o surgimento do movimento musical na capital carioca.
Nos anos seguintes, o escritor publicou obras de grande impacto e alcance de público:
- O Anjo Pornográfico: A Vida de Nelson Rodrigues (1992), sobre o dramaturgo e jornalista;
- Estrela Solitária: Um Brasileiro Chamado Garrincha (1995), focado na trajetória do craque do futebol;
- Carmen: Uma Biografia (2005), focado na cantora e atriz Carmen Miranda.
O rigor da pesquisa no processo de criação de uma biografia
A produção literária do autor é caracterizada por um rigoroso trabalho de apuração documental e de checagem de memórias. Para realizar a apuração sobre Carmen Miranda, por exemplo, o escritor assistiu a dezenas de filmes de época e pesquisou exaustivamente os cenários norte-americanos por onde a artista passou.
Esse método meticuloso foi novamente aplicado em Trincheira tropical. O projeto exigiu seis anos de dedicação contínua, dos quais quatro anos e meio foram voltados exclusivamente à pesquisa e um ano e meio à redação do texto final. O autor defende que uma imersão longa é indispensável para identificar contradições e falhas na memória dos entrevistados.
Com o novo prêmio recebido na premiação organizada pela Câmara Brasileira do Livro, o autor recebe o valor de R$ 70 mil e uma viagem agendada para 2027, na qual poderá participar de uma importante feira internacional de livros entre as opções de Londres, Bolonha, Frankfurt ou Guadalajara.
O Rio de Janeiro como palco central da narrativa e a imersão na guerra
Apesar de ter residido durante 16 anos na cidade de São Paulo e três anos em Portugal, a cidade do Rio de Janeiro permanece como o grande eixo temático da obra de Ruy Castro. O espaço urbano carioca aparece em destaque em títulos como Ela é carioca: Uma Enciclopédia de Ipanema, A Noite do Meu Bem e Metrópole à Beira-Mar: O Rio Moderno dos Anos 20.
Em Trincheira tropical, a cidade retoma o protagonismo ao ser retratada durante o período entre 1935 e 1945. A narrativa examina como a Segunda Guerra Mundial afetou a rotina da então capital federal, abordando as tensões políticas do governo de Getúlio Vargas e os movimentos sociais que culminaram no envio de tropas brasileiras ao exterior.
Reconhecimento consagrado na literatura e na Academia Brasileira de Letras
Além dos troféus no Prêmio Jabuti, a contribuição de Ruy Castro para a cultura nacional rendeu outras homenagens de prestígio. Em 2021, o autor foi laureado com o Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras (ABL) pelo conjunto de sua obra literária e jornalística.
No ano seguinte, em 2022, o escritor foi eleito para ocupar a cadeira de número 13 da ABL, tomando posse oficial em 2023. Casado desde 1991 com a escritora Heloisa Seixas, Ruy Castro também aventurou-se na ficção com o romance Bilac Vê Estrelas (2000), mantendo uma produção intelectual contínua e influente na história recente do país.

