Entre a resiliência operacional e o consumo sob pressão: o cenário dos Fiis de shopping

Entre a resiliência operacional e o consumo sob pressão: o cenário dos Fiis de shopping

Economia

Analisar o desempenho dos fundos imobiliários (FIIs) de shopping centers hoje exige um olhar atento a dois cenários que, embora pareçam contraditórios, coexistem no mercado brasileiro. De um lado, observamos corredores movimentados e uma vacância que se mantém próxima de mínimas históricas, sustentando a tese de que esses ativos possuem uma resiliência operacional notável. De outro, os lojistas enfrentam um ambiente de crédito restritivo e uma compressão visível na renda das famílias, fatores que começam a pesar sobre as vendas reais.

Essa dualidade define o momento atual do segmento na Bolsa. Enquanto a operação se mostra sólida, a sensibilidade ao ciclo econômico impõe cautela. A combinação de ativos com fundamentos defensivos e preços descontados atrai o interesse dos investidores, mas exige uma análise profunda sobre até que ponto o valor de mercado reflete a realidade futura dos dividendos.

A dinâmica do setor e a força do consumo

O setor de shoppings no Brasil possui uma escala robusta. Dados da Abrasce indicam a existência de 658 centros de compras, que somam 18,3 milhões de metros quadrados de área bruta locável. Mensalmente, esses espaços recebem cerca de 471 milhões de visitantes, gerando um faturamento que atingiu R$ 200,9 bilhões em 2025. Essa capilaridade confere ao setor um caráter defensivo, já que a diversificação da base de lojistas dilui os riscos de vacância e inadimplência.

Contudo, a proteção oferecida pelos imóveis não é infinita. O tráfego de pessoas, muitas vezes impulsionado por experiências, lazer e alimentação, pode se manter firme mesmo quando o varejo tradicional desacelera. Entretanto, indicadores como inadimplência e custo de ocupação, embora controlados no momento, são variáveis de reação tardia. Caso o enfraquecimento do consumo se prolongue, a capacidade de repassar reajustes reais de aluguel e manter os spreads de renovação pode ser colocada à prova, limitando o crescimento dos resultados à inflação.

Impactos da Reforma Tributária a partir de 2027

Um fator adicional que começa a entrar no radar dos gestores é a implementação integral da Reforma Tributária em 2027. Com a entrada da CBS e a transição do IBS, o setor de locação passará por mudanças estruturais. A legislação prevê uma redução de 70% nas alíquotas para operações regulares, mas a decisão de aderir ou não ao regime tributário pleno envolve cálculos complexos.

Fundos listados precisarão avaliar se a compensação de créditos sobre despesas operacionais — como energia, segurança e manutenção — compensa a incidência de impostos sobre a receita de locação. A escolha não é trivial e dependerá da estrutura de custos e do volume de investimentos (capex) de cada fundo, o que pode gerar impactos distintos no resultado distribuível aos cotistas.

O desafio da seletividade e o desconto na Bolsa

Atualmente, os FIIs de shopping negociam com um desconto relevante, perto de 0,85 vez o valor patrimonial, patamar abaixo da média histórica de 0,93 vez. Esse cenário é reflexo do custo de capital elevado e da concorrência direta com a renda fixa. Embora o desconto sugira uma oportunidade de reprecificação caso os juros recuem, o investidor deve ter cautela com o dividend yield.

Parte dos proventos recentes foi inflada por receitas não recorrentes, como a venda de ativos. Na média, o valor distribuído supera em cerca de 13% o resultado operacional recorrente (FFO). Portanto, a estratégia atual exige seletividade extrema: buscar portfólios dominantes, com baixa vacância e dividendos sustentados pela operação, e não apenas por ganhos pontuais.

O mercado financeiro é dinâmico e exige acompanhamento constante. No ConexRS, mantemos nosso compromisso de trazer análises aprofundadas e dados contextuais para que você tome decisões embasadas. Continue acompanhando nosso portal para se manter atualizado sobre os movimentos que impactam seus investimentos e a economia nacional.

Fonte: seudinheiro.com