Tradição de benzer animais resiste e se moderniza no interior do estado

Tradição de benzer animais resiste e se moderniza no interior do estado

Rio Grande do Sul

A tradição milenar de benzer animais no interior do estado encontrou na tecnologia digital um importante aliado para garantir a sua continuidade. Praticantes de rituais de cura e proteção para cavalos e bovinos passaram a adotar mensagens de texto, áudios e fotografias enviadas por telefones celulares para atender criadores de diversas regiões, adaptando antigos costumes às novas demandas de comunicação do campo.

Em vez de exigir o deslocamento presencial até as propriedades rurais, os benzedores utilizam ferramentas virtuais para estabelecer a conexão com os animais enfermos. O fenômeno demonstra a resiliência de uma prática cultural profundamente enraizada na identidade rural, onde a fé e a crença mútua continuam desempenhando um papel central na relação entre criadores e seus bichos.

Adaptação tecnológica e fé na rotina dos benzedores

Em Santo Antônio da Patrulha, o benzedor Ronaldo Diniz Pereira relata que iniciou as atividades há cerca de dez anos e viu a demanda crescer consideravelmente com o uso de meios digitais. Segundo ele, proprietários de gado e cavalos entram em contato enviando imagens para que as orações sejam realizadas à distância, sustentadas pela premissa de que a eficácia do ritual depende exclusivamente da fé envolvida.

Relatos de produtores rurais corroboram a permanência da crendice popular na rotina do campo. Criadores que recorreram ao atendimento remoto apontam melhoras significativas na saúde de animais que apresentavam quadros clínicos delicados, reforçando a convicção na eficácia das preces mesmo sem o contato físico com o rebanho.

Elementos simbólicos e proteção espiritual nos rituais

A preservação dos rituais tradicionais também se manifesta no uso de elementos simbólicos durante as preces. Em Santo Antônio da Patrulha, a benzedeira Arinda Rocha de Souza emprega objetos como folhas e facas em seus atendimentos, gestos que simbolizam o corte e o afastamento das mazelas que atingem os animais.

A atividade é fortemente fundamentada na devoção religiosa, com pedidos direcionados a figuras de proteção como Santo Expedito e São Sebastião. Para os praticantes, a figura do santo atua como guardião indispensável para validar o pedido de cura e assegurar o bem-estar dos animais atendidos nas comunidades.

Resgate da harmonia entre humanos e animais

A permanência dessas práticas no meio rural contemporâneo é analisada por especialistas como um mecanismo histórico de equilíbrio. A escritora Elma Sant’ana aponta que a figura do benzedor ou da benzedeira surgiu para restabelecer a harmonia em uma relação de profunda dependência mútua entre seres humanos e animais no ambiente de trabalho do campo.

Essa visão igualitária entre criador e criatura afasta qualquer hierarquia rígida, tratando a enfermidade do animal como uma desarmonia que precisa ser reparada por meio da espiritualidade e da palavra de fé, mantendo viva uma herança cultural transmitida ao longo de gerações.

Preces rápidas e eventos tradicionalistas

Em Soledade, a benzedeira Jurema mantém a tradição ativa ao circular por eventos tradicionalistas para oferecer auxílio a participantes e criadores que buscam cura para seus cavalos. Com rituais curtos baseados em preces direcionadas para afastar males e invejas, ela relata episódios de recuperação rápida de animais logo após a realização das orações.

As histórias de melhora imediata alimentam a continuidade do costume e garantem que a sabedoria popular permaneça relevante. Entre relatos de cólicas superadas e animais restabelecidos, a tradição demonstra vigor ao unir a simplicidade das antigas rezas à praticidade do mundo moderno.

Saiba mais sobre a preservação de costumes regionais e práticas culturais no portal g1 Rio Grande do Sul.