Uso de imagem religiosa por Lula em comícios gera debate sobre limites da fé na política

Uso de imagem religiosa por Lula em comícios gera debate sobre limites da fé na política

Política

A presença de símbolos religiosos no palanque eleitoral

A reta final da campanha eleitoral tem sido marcada por um episódio que coloca em xeque o histórico de posicionamentos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a relação entre fé e política. Durante um comício realizado em Belém, na segunda-feira (28), o candidato ao Senado Helder Barbalho (MDB-PA) entregou ao presidente uma estatueta de Nossa Senhora de Nazaré. O gesto, que culminou com Lula exibindo a imagem ao público sob aplausos, ganhou novos contornos no dia seguinte, em Fortaleza, quando o petista reafirmou que, sob sua gestão, Nossa Senhora Aparecida permanece como a padroeira do Brasil.

O movimento ocorre em um cenário de disputa acirrada, motivado pela propagação de notícias falsas que sugerem que seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), teria a intenção de retirar o título de padroeira da santa católica. A estratégia, embora eficaz na contenção de danos eleitorais, contrasta com o discurso que o próprio presidente manteve ao longo de sua trajetória política, na qual sempre se posicionou de forma crítica à instrumentalização da religião em processos eleitorais.

Resistência histórica e a intuição na campanha

Aliados próximos ao presidente descrevem Lula como um político resistente à ideia de mesclar dogmas religiosos com a disputa pelo poder. Católico, o mandatário costuma tratar o tema com cautela. Segundo fontes internas da campanha, o uso da imagem da santa tem ocorrido de maneira intuitiva, como uma resposta imediata ao desgaste causado pelas fake news, e não como parte de uma estratégia de marketing desenhada por marqueteiros ou consultores de comunicação.

Apesar da repercussão pública, a cúpula da campanha petista indica que o tema não deve ser incorporado aos materiais oficiais, como panfletos e vídeos de propaganda eleitoral. A cautela se justifica pela origem do boato, que se consolidou no ambiente digital por meio de desinformação. O objetivo é evitar que a pauta se torne um elemento central de uma discussão que, na visão da coordenação, deveria estar focada em temas administrativos e programáticos.

O contraste entre o discurso e a prática

A postura recente do presidente cria um ruído em relação às suas declarações públicas anteriores. Há cerca de duas semanas, ao receber lideranças evangélicas no Palácio do Planalto, Lula reforçou sua posição de que não utiliza templos para proselitismo político. Na ocasião, ele afirmou: “Eu me recuso toda vez que alguém pede para ir em igreja falar de política. Eu não vou porque eu respeito muito a fé das pessoas”.

Essa visão de que a religião não deve ser utilizada eleitoralmente já havia sido manifestada pelo presidente em setembro de 2025. Contudo, a presença da primeira-dama, Janja Lula da Silva, nas redes sociais, trouxe uma camada adicional ao debate. Devota declarada, ela compartilhou a imagem do presidente com a santa, acompanhada de uma mensagem de fé, o que amplificou o alcance do gesto para além dos palanques físicos, consolidando a cena como um dos momentos mais comentados desta fase da corrida eleitoral.

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Fonte: redir.folha.com.br