Violência contra a mulher pauta o voto feminino em meio à escalada de feminicídios no Brasil

Violência contra a mulher pauta o voto feminino em meio à escalada de feminicídios no Brasil

Política

A urgência da segurança pública no debate eleitoral

O cenário de insegurança que assombra as brasileiras tornou-se um dos eixos centrais das discussões sobre o futuro do país. Com uma média alarmante de quatro feminicídios por dia, o Brasil enfrenta um desafio estrutural que transcende as divisões partidárias. Em 2025, o país registrou 1.571 casos de feminicídio, um dado que, somado a centenas de agressões físicas e ameaças diárias, desenha um cotidiano de medo para milhões de cidadãs.

A série “Voto das Mulheres”, que investiga as aspirações e preocupações do eleitorado feminino, revela que, independentemente da classe social ou da inclinação política, a proteção contra a violência de gênero é uma prioridade inegociável. Para muitas mulheres, como a pernambucana Janaína Almeida, 43, a superação de traumas pessoais — ela própria uma sobrevivente de violência doméstica — transformou-se em um ativismo prático. Hoje, ela atua no suporte a vítimas e defende que o debate sobre segurança deve ser tratado como uma pauta de Estado, acima de ideologias.

O machismo estrutural e a percepção do Estado

A violência contra a mulher no Brasil não ocorre de forma isolada; ela é alimentada por um machismo estrutural profundo. Dados recentes dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva indicam que 54% das mulheres relatam ter sofrido algum tipo de violência prevista na Lei Maria da Penha. Em contraste, apenas 11% dos homens admitem ter cometido agressões contra parceiras ou ex-parceiras, evidenciando um abismo na percepção da realidade entre os gêneros.

Especialistas, como a professora da UnB Flávia Biroli, apontam que as mulheres possuem uma expectativa distinta em relação à atuação estatal. Enquanto o discurso punitivista ganha tração em certos setores, o eleitorado feminino tende a valorizar políticas públicas de proteção social, como creches e redes de apoio, que permitem a autonomia e a segurança das famílias. Para muitas, o medo não é apenas da violência física imediata, mas da vulnerabilidade social que a falta de suporte do Estado impõe.

Entre o medo e o exercício da cidadania

O impacto da violência na rotina das brasileiras é paralisante. Relatos colhidos em diferentes regiões do país mostram que o “estado de alerta” é uma constante. Mulheres como a assistente social Patrícia Maria da Cruz Silva Oliveira, 44, descrevem a restrição de mobilidade urbana por medo de ataques. Para ela, a independência e a escolha política são formas de resistência contra um sistema que, historicamente, tentou definir a mulher apenas pela sua relação com o homem.

Apesar da polarização política, as eleitoras demonstram pragmatismo. Mesmo entre eleitoras de campos opostos, há discordâncias pontuais sobre temas como a flexibilização do porte de armas. Janaína Almeida, por exemplo, embora apoie o campo político da direita, rejeita a ideia de que o armamento da população seja a solução para a segurança feminina. A busca por um país onde seja possível caminhar sem medo, metaforicamente descrito por ela como um “caminho iluminado”, sintetiza o desejo coletivo por um Brasil mais seguro e menos violento.

O ConexRS segue acompanhando os desdobramentos das eleições e os debates que moldam o futuro do país. Nosso compromisso é levar até você informações contextualizadas, mantendo a transparência e o rigor jornalístico necessários para que cada cidadão possa formar sua própria opinião com base em fatos e análises profundas. Continue conosco para mais reportagens exclusivas sobre os temas que impactam a sociedade brasileira.

Fonte: redir.folha.com.br