Nos bastidores de Brasília, a movimentação para garantir a sobrevivência política muitas vezes ignora as investigações judiciais em curso. O deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG), indiciado pela Polícia Federal por suposta participação em um esquema de corrupção no INSS, está no centro de uma negociação que envolve a troca de cargos no governo estadual de Minas Gerais por uma cadeira no Congresso Nacional.
Pettersen, que não conseguiu a reeleição direta e ocupa a posição de primeiro suplente, foi flagrado articulando a abertura de uma vaga na Câmara dos Deputados. A estratégia consiste em convencer parlamentares eleitos de seu partido a assumirem secretarias no governo de Cleitinho Azevedo, o que abriria caminho para que ele, como suplente, assumisse o mandato em Brasília.
A articulação nos bastidores e a oferta de secretarias
A negociação ocorreu de forma explícita durante um evento político recente na capital federal. Pettersen foi visto abordando o deputado federal reeleito Gilberto Abramo no estacionamento do local, oferecendo-lhe a liberdade de escolher “qualquer secretaria” no futuro governo mineiro. O objetivo é claro: se Abramo se licenciar para ocupar um cargo no Executivo estadual, a vaga na Câmara fica disponível para o primeiro suplente da coligação.
Durante o diálogo, Pettersen, que preside o Republicanos em Minas Gerais, demonstrou pressa ao avistar Cleitinho Azevedo, chamando o governador eleito para validar a conversa com Abramo. Embora Pettersen tenha negado oficialmente as negociações, afirmando que a legitimidade de indicações cabe apenas ao governador, a cena presenciada reforça a prática comum de “dança das cadeiras” para acomodar aliados que não obtiveram êxito nas urnas.
O peso do indiciamento na Operação Sem Desconto
O que torna a articulação de Euclydes Pettersen particularmente sensível é o seu histórico recente com a Justiça. Em julho, a Polícia Federal indiciou o parlamentar pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. A investigação faz parte da Operação Sem Desconto, que apura fraudes bilionárias e desvios de recursos no Instituto Nacional de Seguridade Social.
De acordo com o relatório da PF, Pettersen teria sido beneficiado com cerca de R$ 14,7 milhões em propinas, pagas de forma fracionada por meio de contas de casas lotéricas e empresas de fachada. O documento aponta que o deputado atuava como o principal fiador político do grupo criminoso no Congresso, garantindo a manutenção de diretores e procuradores corrompidos dentro do INSS para viabilizar as fraudes.
Os investigadores também detalharam métodos sofisticados de lavagem de dinheiro, que incluiriam o uso de pecuária no Mato Grosso, desmatamento químico de fazendas e a ocultação de aeronaves. Em planilhas apreendidas durante a operação, o nome de Pettersen aparecia associado ao codinome “herói”, indicando sua importância estratégica para a organização.
Desdobramentos políticos e a defesa do parlamentar
A situação de Pettersen agora depende do Ministério Público, que analisa o indiciamento para decidir se apresentará uma denúncia formal à Justiça. Em sua defesa, o deputado reitera sua inocência e afirma que o indiciamento não configura condenação. Ele alega que a investigação não considerou seus argumentos de defesa e nega ter indicado qualquer pessoa para cargos no INSS.
A manutenção de um mandato federal é vista como um escudo político importante, garantindo o foro por prerrogativa de função, embora o Supremo Tribunal Federal tenha restringido esse alcance nos últimos anos. Para o partido Republicanos, a acomodação de Pettersen é uma questão de equilíbrio interno na bancada mineira, que conta com nomes como Bruno Farias e Gleidson Azevedo, irmão do governador eleito.
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Fonte: redir.folha.com.br

