A viagem de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos após a derrota nas urnas desencadeou uma forte onda de insatisfação entre integrantes das Forças Armadas. O movimento reativou memórias e críticas semelhantes às registradas no final de 2022, quando Jair Bolsonaro também deixou o país após o pleito presidencial. Entre fardados da ativa e da reserva, a conduta de abandonar o país sem o reconhecimento formal do resultado eleitoral passou a ser vista como uma quebra de princípios fundamentais da caserna.
O episódio recente escancarou fraturas no bloco da chamada “família militar”, que historicamente inclui militares das três forças, parentes e pensionistas. Embora o antipetismo continue forte e tenha garantido apoio maciço à candidatura no processo eleitoral, a repetição da estratégia de contestação e exílio voluntário esgotou a paciência de setores importantes da tropa. Para oficiais ouvidos pela reportagem, a atitude fere códigos básicos de honra e lealdade com a base de eleitores.
Revolta na caserna com o abandono de tropa
A reação negativa entre oficiais-generais e praças não demorou a se espalhar. A avaliação predominante no meio militar é de que um líder político com forte apelo junto às Forças Armadas não pode deixar o território nacional em momentos de crise institucional sem prestar contas aos seus apoiadores.
- Críticas severas à postura de deixar o país após o pleito.
- Comparação direta com o abandono de uma tropa em situação de vulnerabilidade.
- Desgaste profundo da imagem de lideranças que contestam os resultados sem apresentar provas consistentes.
- Percepção de que os valores tradicionais de caráter e honra foram ignorados.
Essa postura foi classificada por oficiais como imperdoável dentro da cultura militar. Para esse grupo, o episódio superou divergências estritamente ideológicas e passou a ser tratado como uma questão de conduta pessoal e respeito aos milhões de eleitores que confiaram na proposta política do grupo.
Ascensão e favoritismo de Tarcísio de Freitas
Enquanto o bolsonarismo enfrenta turbulências com as consecutivas saídas de seus principais nomes para o exterior, o cenário político regional e nacional ganha novos contornos. O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, consolidou sua posição como o nome favorito dos militares para encabeçar uma futura alternativa viável à Presidência da República.
Capitão da reserva do Exército, Tarcísio construiu uma imagem de gestor pragmático e mantém laços estreitos com a caserna desde o período em que atuou nos quadros técnicos do Estado e como ministro. A recente sinalização de que ele avalia disputar o Planalto após o término de seu mandato estadual encontrou terreno fértil entre os militares descontentes com os rumos da ala radical.
A transição de liderança dentro do espectro conservador reflete a busca por uma figura que agregue apoio institucional sem carregar o desgaste de crises recorrentes. A Folha de S.Paulo acompanhou as articulações nos bastidores que demonstram o distanciamento gradual do governador em relação aos episódios de confronto institucional. Esse reposicionamento estratégico atrai o apoio de oficiais que desejam estabilidade e previsibilidade no cenário político nacional para os próximos anos.

