Intervenção no Ueno Bank deixou milhões de clientes sem acesso aos recursos, provocou protestos e levou o Congresso a avançar com processo de impeachment contra Santiago Peña
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou sua renúncia ao cargo nesta quinta-feira (5), em meio a uma das maiores crises político-financeiras recentes do país. A decisão ocorreu após a intervenção e dissolução do Ueno Bank, instituição financeira digital que atendia milhões de paraguaios e passou a ser investigada por irregularidades financeiras. O episódio desencadeou protestos populares, pressão de parlamentares e questionamentos sobre a relação entre o governo e o setor bancário.
A crise ganhou proporções nacionais depois que o Banco Central do Paraguai determinou, em 3 de novembro, a intervenção na instituição por problemas de solvência. Com aproximadamente 2,9 milhões de clientes em um país de cerca de 6,1 milhões de habitantes, o banco tinha presença significativa no sistema financeiro paraguaio. A medida deixou milhares de correntistas sem acesso imediato às suas economias, incluindo recursos destinados a despesas familiares, salários e compromissos financeiros.
Relações empresariais ampliaram a pressão sobre o governo
A situação ganhou dimensão política porque Santiago Peña manteve participação acionária na Ueno Holding, empresa relacionada ao grupo controlador do banco, até março de 2025. Outro ponto de questionamento envolve Carlos Carvallo, que presidia o Banco Central desde 2023 e anteriormente havia ocupado a presidência do Ueno Bank. Carvallo também deixou o cargo em meio à crise.
As investigações passaram a examinar operações financeiras, empréstimos concedidos a empresas relacionadas ao grupo controlador e possíveis irregularidades na administração da instituição. Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, oito executivos foram detidos e 27 pessoas passaram a responder a acusações relacionadas às apurações. As suspeitas ainda dependem de investigação e comprovação pelas autoridades competentes.
Outro aspecto que ampliou a preocupação foi a exposição de recursos públicos. O Ueno administrava aproximadamente US$ 850 milhões em fundos públicos, segundo informações divulgadas pela Reuters. A Associated Press também apontou cerca de US$ 800 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos ligados a fundos previdenciários e de saúde. O episódio levantou questionamentos sobre os mecanismos de fiscalização, a gestão dos recursos e a proteção dos depositantes.
Impeachment e renúncia aceleraram a crise institucional
Antes do anúncio da renúncia, parlamentares já articulavam a abertura de um processo de impeachment contra Peña. A iniciativa começou com a oposição, mas também recebeu apoio de integrantes do próprio Partido Colorado, legenda à qual pertence o presidente.
A Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade, em votação de 78 a zero, o avanço do processo de impeachment, poucos minutos depois do anúncio da renúncia, segundo a Associated Press. A tramitação ainda dependia da análise do Senado.
Em sua manifestação pública, Peña afirmou que decidiu deixar o cargo pensando na estabilidade nacional, na paz social e na preservação das instituições democráticas. Também pediu desculpas à população e defendeu que os recursos dos depositantes sejam devolvidos, com o cumprimento das obrigações do Fundo de Garantia de Depósitos.
A sucessão presidencial aponta para o vice-presidente Pedro Alliana, também integrante do Partido Colorado, que deverá assumir o comando do Executivo caso a renúncia seja aceita pelo Congresso. A expectativa é de que ele complete o mandato até agosto de 2028.
Consequências para a economia paraguaia
A crise do Ueno Bank representa um teste importante para a credibilidade do sistema financeiro paraguaio. O bloqueio de recursos de milhões de clientes pode comprometer o consumo, a capacidade de pagamento das famílias e a confiança de empresas e investidores nas instituições financeiras.
O episódio também coloca em evidência a importância da independência dos órgãos reguladores, da transparência nas relações entre governo e empresas privadas e da fiscalização dos recursos públicos administrados por instituições financeiras.
Para o Paraguai, o desafio imediato será restabelecer a confiança dos depositantes, garantir os mecanismos de ressarcimento e demonstrar que as investigações terão independência e transparência. A crise deixa consequências que vão além da saída de um presidente e pode influenciar a estabilidade política e o ambiente de negócios do país nos próximos anos.

