A balança comercial brasileira vive um momento de forte interdependência com a China, consolidando uma estrutura de exportações altamente concentrada em poucos itens. Dados referentes a 2025 revelam que apenas três produtos — soja em grão, petróleo bruto e minério de ferro — foram responsáveis por quase 75% de tudo o que o Brasil vendeu para o mercado chinês. Esse cenário, embora sustente recordes de receita, levanta questionamentos sobre a vulnerabilidade da economia nacional diante de oscilações globais e mudanças estratégicas em Pequim.
No total, o Brasil exportou US$ 99,9 bilhões para a China em 2025, o que representa 28,6% de todas as vendas externas do país. Para efeito de comparação, os Estados Unidos, segundo maior parceiro comercial, absorveram 10,8% do total, movimentando US$ 37,7 bilhões. A disparidade reforça o peso da China como motor do comércio exterior brasileiro, mas também evidencia o risco de uma exposição excessiva a um único comprador.
Vulnerabilidade e riscos da concentração comercial
A análise de Francisca Grostein, professora de comércio exterior do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas da Universidade Presbiteriana Mackenzie e integrante do Núcleo de Estudos sobre a China (NECH), aponta que a dependência vai além do volume financeiro. A concentração em commodities deixa a arrecadação brasileira refém tanto da volatilidade das cotações internacionais quanto das decisões políticas de Pequim.
O valor de US$ 74 bilhões, somado apenas com as três principais commodities, equivale a mais de um quinto de todas as exportações brasileiras para o mundo. Essa estrutura cria um cenário de fragilidade, onde qualquer alteração no apetite chinês ou na demanda por matérias-primas pode repercutir diretamente na saúde fiscal e no desempenho de setores estratégicos da economia brasileira.
Transição econômica chinesa e novos desafios
O modelo de crescimento chinês atravessa uma fase de transição significativa. O setor imobiliário, historicamente um grande consumidor de minério de ferro brasileiro, perdeu o dinamismo de décadas anteriores. Em contrapartida, o governo chinês tem direcionado investimentos massivos para áreas como veículos elétricos, baterias, energias renováveis e inteligência artificial.
Além disso, Pequim tem priorizado políticas de segurança econômica, buscando maior autossuficiência em setores críticos como energia e alimentos. Segundo Grostein, esse movimento de longo prazo pode alterar gradualmente o perfil das importações chinesas, exigindo que o Brasil esteja atento a possíveis mudanças nos volumes e nos tipos de produtos demandados.
Caminhos para a diversificação e valor agregado
Embora uma retração abrupta nas compras chinesas seja considerada pouco provável, dada a competitividade do agronegócio e da mineração do Brasil, a especialista defende a urgência de uma estratégia de diversificação. O objetivo não é romper laços, mas ampliar a pauta exportadora e buscar novos mercados para reduzir a exposição aos riscos externos.
A recomendação é que o Brasil utilize a parceria com a China para integrar cadeias produtivas de maior valor agregado. Isso inclui o fornecimento de insumos e componentes industriais voltados para os setores que Pequim está priorizando em sua nova fase de desenvolvimento. A agenda de diversificação, que já era um tema recorrente, ganha agora um caráter de urgência para garantir a sustentabilidade do comércio exterior brasileiro a longo prazo.
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Fonte: portaldoagronegocio.com.br

