A armadilha do crescimento desenfreado
A ambição de consolidar grandes impérios corporativos tem se revelado um caminho tortuoso para diversas companhias brasileiras nos últimos anos. Casos emblemáticos como os de Natura, Azzas e Hapvida ilustram como estratégias de fusões e aquisições, o chamado M&A, podem resultar em destruição de valor quando desprovidas de fundamentos sólidos ou executadas em momentos econômicos desfavoráveis.
Apesar dos tropeços recentes, o mercado não condena a prática de forma absoluta. Segundo Bruno Rignel, CIO da Alphakey, a estratégia de crescimento inorgânico não é uma vilã por natureza. Quando bem planejada, ela permitiu o sucesso de gigantes como Itaú Unibanco e RaiaDrogasil. O divisor de águas entre o triunfo e o fracasso reside, essencialmente, na disciplina de execução e no preço pago pelo ativo.
O impacto dos juros e a cultura do construtor de impérios
Um dos maiores equívocos estratégicos ocorreu durante o período de juros historicamente baixos, quando a taxa básica da economia brasileira girava em torno de 2%. Naquele cenário, o crédito barato mascarava ineficiências operacionais, criando a ilusão de que qualquer aquisição seria rentável. Com a escalada da Selic para patamares próximos a 14%, o custo das dívidas contraídas para financiar essas expansões tornou-se um peso insustentável, corroendo os lucros e pressionando as margens.
Além do fator macroeconômico, Rignel aponta a figura do Empire Builder, ou o “construtor de impérios”. Esse perfil de gestão prioriza o volume de faturamento e a escala em detrimento da rentabilidade real. Para o investidor, esse comportamento é um sinal de alerta: o crescimento da receita, quando não acompanhado por geração de caixa, frequentemente beneficia apenas os credores, deixando o acionista minoritário com ações estagnadas ou em queda.
Análise dos casos Natura, Hapvida, Azzas e Anima
A Hapvida exemplifica o risco de basear uma fusão em uma lucratividade efêmera, como a observada durante a pandemia, quando a demanda por procedimentos eletivos caiu drasticamente. Ao normalizar o cenário, a integração com a Intermédica revelou custos operacionais acima do esperado. Já a Natura sofreu com uma internacionalização agressiva, ao adquirir a Avon e herdar operações complexas em mercados distantes, perdendo o foco em sua essência e falhando em adaptar seu modelo de vendas diretas à era do e-commerce.
No setor de moda, a Azzas, resultante da união entre Arezzo e Soma, enfrenta o desafio de integrar negócios com pouca afinidade operacional, além de lidar com ruídos entre fundadores que afastam o mercado. Por fim, a Anima ilustra o erro de pagar um preço excessivo por ativos, como a FMU, que já estavam em recuperação judicial. A aquisição onerosa, somada ao alto endividamento prévio da companhia, enviou um sinal negativo aos investidores sobre a disciplina de alocação de capital.
Perspectivas para o mercado de capitais
O debate sobre a saúde das empresas listadas na bolsa brasileira continua sendo um dos pilares para a tomada de decisão do investidor. Enquanto setores como o de mineração, representado pela Vale, demonstram resiliência através do controle de custos, outros segmentos enfrentam desafios estruturais severos. Acompanhar a governança, os incentivos dos executivos e a real capacidade de geração de valor após grandes transações é fundamental para navegar com segurança no mercado financeiro.
Para continuar aprofundando seus conhecimentos sobre o mercado financeiro e as tendências que movimentam a economia nacional, acompanhe as análises do Conexrs. Nosso compromisso é levar até você informações relevantes, contextualizadas e fundamentadas, garantindo que você tome decisões com clareza e segurança em um cenário econômico em constante transformação.
Fonte: seudinheiro.com
