A mudança no Rio Grande do Sul já está acontecendo em alguns setores
A adoção da escala 5×2 começa a ganhar espaço entre empresas gaúchas, principalmente no varejo e nos serviços. O movimento, que reduz a tradicional jornada 6×1 para dois dias de folga semanais, vem sendo impulsionado pela dificuldade de contratação, aumento do turnover e pela busca de um ambiente de trabalho mais atrativo para os colaboradores. Em muitos casos, a carga horária semanal segue em 44 horas, mas redistribuída ao longo de cinco dias. No Rio Grande do Sul, algumas das maiores operações do varejo já iniciaram adaptações no modelo de jornada. A Farmácias São João está entre as empresas que passaram a implementar a escala 5×2 em parte das unidades. Com milhares de colaboradores espalhados pelo Estado, a rede vem utilizando a mudança como ferramenta para retenção de profissionais e fortalecimento da marca empregadora em um mercado cada vez mais competitivo.
Outra empresa gaúcha que iniciou mudanças operacionais foi a Comercial Zaffari, dona da bandeira Stok Center. O grupo passou a adaptar jornadas em diferentes setores, buscando melhorar a qualidade de vida dos funcionários sem reduzir a carga horária prevista na legislação trabalhista. A lógica tem sido simples: manter produtividade e, ao mesmo tempo, oferecer um modelo considerado mais equilibrado pelas novas gerações de trabalhadores.

A Lojas Quero-Quero também entrou no grupo de empresas que estudam formatos mais flexíveis de jornada. A varejista, uma das maiores do Sul do país, acompanha um movimento que já começa a impactar diretamente o recrutamento. Em muitos processos seletivos, a escala de trabalho passou a ser um fator decisivo para candidatos aceitarem ou recusarem vagas.
No setor gastronômico, o debate também começou a ganhar força. O Grupo Bah, liderado pelo chef Marcos Livi, chegou a testar a escala 5×2 em restaurantes e hotelaria durante alguns meses de 2026. A experiência trouxe desafios operacionais, principalmente na composição das equipes e no aumento dos custos, mostrando que a adaptação ainda exige planejamento e ajustes conforme o segmento.
Especialistas em gestão de pessoas avaliam que a mudança deixou de ser apenas uma pauta trabalhista e passou a integrar as estratégias de employer branding das empresas. Em um cenário de escassez de mão de obra, especialmente no comércio e nos serviços, oferecer jornadas consideradas mais equilibradas virou diferencial competitivo. Além da retenção, organizações passaram a enxergar ganhos em produtividade, clima interno e reputação institucional.
Na prática, a maior parte das empresas não reduziu a jornada semanal total. O que mudou foi a distribuição das horas trabalhadas. Em vez de seis dias consecutivos de expediente, muitos colaboradores passaram a cumprir jornadas próximas de 8h48 diárias em cinco dias da semana, garantindo duas folgas. Dependendo da operação, essas folgas podem ou não ser consecutivas.
O avanço da escala 5×2 também acompanha uma transformação cultural no mercado de trabalho brasileiro. Profissionais mais jovens passaram a valorizar com maior intensidade equilíbrio entre vida pessoal e carreira, flexibilidade e saúde mental. Empresas que ignoram essa mudança começam a enfrentar dificuldades maiores para preencher vagas operacionais, especialmente em setores com alta rotatividade.
Além do Rio Grande do Sul, grandes redes nacionais já passaram a testar modelos semelhantes, ampliando a pressão competitiva sobre o varejo regional. O tema ganhou força nas redes sociais, no LinkedIn e em debates corporativos ligados à produtividade e bem-estar no ambiente profissional. Para especialistas, a tendência é que o assunto continue crescendo nos próximos anos, principalmente em segmentos que dependem diretamente de atendimento presencial e grande volume de equipes.
Mais do que uma simples mudança de escala, o 5×2 começa a ser visto como símbolo de uma nova relação entre empresas e trabalhadores. E no mercado gaúcho, onde a disputa por mão de obra se intensificou após os desafios econômicos e climáticos enfrentados pelo Estado, adaptar jornadas pode deixar de ser apenas um benefício e se tornar uma necessidade estratégica.
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