Em um cenário econômico marcado por juros elevados e uma busca incessante por rentabilidade acima do CDI, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) consolidaram-se como a principal aposta da indústria de crédito no Brasil. O tema, que dominou os debates durante a Expert XP 2026, reflete uma mudança estrutural na forma como o mercado de capitais financia a economia real, desafiando a hegemonia histórica dos grandes bancos comerciais.
A necessidade de diversificação tornou-se urgente após uma sequência de eventos adversos no mercado de crédito corporativo. Segundo Jean-Pierre Cote Gil, gestor da Vinland Capital, o mercado enfrentou cerca de 40 calotes desde a recuperação judicial das Lojas Americanas em 2023. Diante desse histórico recente, a gestão de ativos de dívida deixou de ser apenas uma busca por retornos agressivos para se tornar um exercício rigoroso de preservação de capital e seleção criteriosa de emissores.
A ascensão dos FIDCs no mercado de crédito
O grande apelo dos FIDCs reside na capacidade de securitizar recebíveis, transformando fluxos financeiros futuros — como parcelas de cartões de crédito, financiamentos de veículos e crédito consignado — em ativos investíveis. Enquanto a indústria tradicional de crédito corporativo tende a concentrar-se em grandes empresas de infraestrutura, saneamento e energia, os FIDCs permitem uma capilaridade maior, alcançando nichos que muitas vezes passam despercebidos pelos grandes players.
Para Alexandre Muller, CIO da Leto Capital, o sucesso de uma operação de FIDC não depende apenas do ativo subjacente, mas da qualidade do originador. “O coração do FIDC é a originação dos recebíveis. É fundamental entender o histórico de pagamentos e a governança por trás do processo de avaliação de risco”, destaca o gestor. Embora o setor ainda enfrente desafios operacionais, como a baixa liquidez e a ausência de marcação a mercado, essas características são compensadas por prêmios que superam o CDI entre 1% e 2%, um diferencial atrativo em um ambiente de taxas espremidas.
Desafiando a hegemonia bancária
A expansão dos FIDCs também sinaliza uma mudança na relação de forças entre o mercado de capitais e o sistema bancário tradicional. Marcelo Urbano, gestor da XP Asset, observa que, em momentos de política monetária restritiva, os bancos tendem a interromper a concessão de crédito de forma generalizada, cortando o financiamento até mesmo para empresas com bons fundamentos. É nesse vácuo de liquidez que os gestores de crédito encontram oportunidades para estruturar operações robustas.
O crescimento é expressivo. Dados apresentados durante o evento indicam que a relação entre o crédito bancário e o crédito via mercado de capitais alcançou a paridade no Brasil no último ano. Embora represente um avanço histórico, o setor ainda vê espaço para expansão, especialmente ao comparar com o mercado norte-americano, onde o crédito via mercado de capitais chega a ser quatro vezes maior que o bancário. A meta, segundo os especialistas, é tornar o sistema financeiro brasileiro mais distributivo e menos dependente de poucas instituições.
Acompanhe o Conexrs para seguir por dentro das movimentações do mercado financeiro e entender como as estratégias dos grandes gestores impactam o seu patrimônio. Nosso compromisso é levar até você uma análise aprofundada, com a credibilidade e a clareza que o seu planejamento financeiro exige.
Fonte: seudinheiro.com
