A movimentação no centro de Gramado, na Serra Gaúcha, ganhou um tom especial de celebração e nostalgia com a realização do 16º Encontro Nacional de Papais Noéis. O evento, que segue até sexta-feira, dia 30, reúne dezenas de bons velhinhos vindos de diversas partes do país. Entre caminhadas e saudações, os participantes transformam o cenário urbano e chamam a atenção de moradores e turistas que passam pela região.
Para quem circula pelas vias centrais do município gaúcho, o grupo atua como um atrativo à parte, promovendo interações diretas e momentos de integração. A presença massiva dos personagens natalinos resgata lembranças afetivas e proporciona encontros inesperados que marcam a experiência dos visitantes na cidade.
Encontro nacional em Gramado reúne representantes de seis estados
Ao todo, cerca de 60 Papais Noéis participam da edição deste ano do evento. O grupo é composto por representantes vindos do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná. A programação contempla atividades voltadas ao convívio entre os próprios profissionais e dinâmicas públicas criadas para aproximá-los do público que visita a cidade de Gramado durante o período.
Essas dinâmicas ao ar livre acabam gerando momentos de intensa comoção entre os pedestres. Foi o caso da pedagoga Roberta Rocha Guimarães, moradora de Maceió, em Alagoas. Ao passear pelo centro urbano sem planejar o encontro, a turista deparou-se com o grupo reunido e não conseguiu conter as lágrimas diante da cena.
A visitante relatou que cresceu sem vivenciar as celebrações tradicionais da época e que carregar essa falta na infância tornou o reencontro simbólico. Segundo a pedagoga, o momento permitiu realizar um desejo guardado desde a infância. “Me tocou muito porque eu fui uma criança que não teve festa, que não teve memórias com pai e com mãe. A gente sempre sonha em tirar foto com o Papai Noel”, revelou a turista.
Visivelmente comovida com a presença dos atores caracterizados, a visitante reforçou o impacto duradouro da surpresa. “A emoção foi à flor da pele. Isso me fez resgatar tudo lá atrás. É uma memória que vou levar para o resto da minha vida”, destacou Roberta Rocha Guimarães.
Trajetórias de vida dedicadas ao espírito natalino
Por trás das barbas brancas e das vestes vermelhas, os participantes carregam histórias pessoais marcadas por transformações e superação. Um dos integrantes do grupo é Alberto José Antônio Martinho, de 72 anos, vindo do município de Braço do Norte, em Santa Catarina. Durante quatro décadas, ele trabalhou como mecânico de bicicletas, mas há três décadas atua como Papai Noel ao lado de sua esposa, que interpreta a Mamãe Noel.
A transição de profissional das ferramentas para o personagem símbolo do Natal ocorreu de forma espontânea no cotidiano do seu antigo estabelecimento comercial. Quando ainda mantinha a oficina de bicicletas, Alberto costumava receber visitas de crianças atendidas por uma creche local. Devido à sua barba longa na época, os pequenos começaram a associar o local à figura lendária e passaram a chamar a oficina de “Casa do Papai Noel”, o que o motivou a adotar o papel definitivamente.
Transformação social e compromisso comunitário
Essa escolha de vida trouxe uma nova perspectiva para Alberto José Antônio Martinho. Criado em uma família numerosa com 14 irmãos, ele vivenciou um período de restrições financeiras severas durante a juventude, no qual as festividades de fim de ano não faziam parte da rotina familiar. “Na minha infância eu não tinha Natal. Era só trabalho e dificuldades”, relembrou o catarinense.
O impacto dessa vivência impulsionou uma postura de solidariedade contínua. Além das atuações sazonais em eventos como o encontro gaúcho, o catarinense dedica o ano todo a ações sociais, distribuindo brinquedos, doces e donativos para famílias que enfrentam vulnerabilidade socioeconômica.
Para o veterano, a missão do personagem ultrapassa os aspectos comerciais e estéticos das festas de fim de ano. “O Papai Noel, na realidade, não tem preço, tem valores. O valor do Papai Noel é ver as pessoas felizes”, concluiu o participante do encontro nacional.

