A eficácia no combate a fraudes e crimes financeiros no Brasil enfrenta obstáculos estruturais que vão muito além da simples fiscalização de mercado. Durante os debates do IV Congresso de Fundos de Investimentos, promovido pela Associação de Advogados (AASP), representantes do Ministério Público Federal e do Conselho de Controle de Atividades Financeiras colocaram em evidência uma falha crônica na comunicação entre os órgãos reguladores e as autoridades de persecução penal.
As críticas apontam que a Comissão de Valores Mobiliários peca pela morosidade no acionamento de outras instituições, envia relatórios excessivamente técnicos de difícil compreensão e, em diversas ocasiões, deixa de estabelecer o diálogo ágil necessário para evitar a dissipação de ativos ilícitos. Para os especialistas presentes no evento, a fragmentação institucional prejudica a recuperação de valores e enfraquece a resposta do Estado frente a operações fraudulentas.
As críticas do Ministério Público aos relatórios técnicos
Segundo o procurador da República Andrey Borges de Mendonça, grande parte do material enviado ao Ministério Público Federal chega repleta de jargões e excessos técnicos voltados exclusivamente para especialistas do mercado de capitais. Essa formatação acaba por dificultar o entendimento rápido por parte de promotores e investigadores que precisam agir com urgência diante de suspeitas de desvios.
O procurador Marco Antônio Ghannage Barbosa reforçou que a demora na entrega de informações viáveis para medidas cautelares compromete severamente a recuperação do dinheiro das vítimas. Para Barbosa, esperar o encerramento completo da investigação administrativa para só então iniciar a esfera penal é um modelo ineficiente que permite aos suspeitos ocultarem patrimônio.
O posicionamento do Coaf sobre comunicações defensivas
Do ponto de vista da inteligência financeira, o cenário relatado pela secretária-executiva do Coaf, Carolina Yumi, revela que a qualidade das notificações recebidas ainda deixa a desejar. Dados apresentados durante o evento indicam que, das milhares de comunicações enviadas pelo segmento regulado pela CVM, apenas uma fração reduzida consegue ser aproveitada em relatórios de inteligência.
Yumi classificou muitas dessas notificações como medidas puramente defensivas, feitas sem o devido contexto ou explicações claras sobre os riscos envolvidos. Sem detalhes sobre os clientes e a lógica das operações, os dados tornam-se dispersos e incapazes de gerar pistas concretas para investigações aprofundadas.
A resposta da CVM e os desafios operacionais
Em contrapartida às críticas recebidas, representantes da autarquia reconheceram limitações estruturais e operacionais diante da expansão e da complexidade do mercado financeiro digital. O superintendente de Supervisão de Investidores Institucionais, Claudio Maes, apontou a escassez de recursos tecnológicos avançados para automatizar a fiscalização em larga escala.
Já o superintendente de Securitização e Agronegócio, Bruno Gomes, destacou que o quadro reduzido de servidores precisa lidar com um volume expressivo de denúncias diárias, exigindo uma seleção rigorosa de prioridades. Embora tenham admitido falhas históricas no acompanhamento de fundos exclusivos e na velocidade do contato com o Ministério Público Federal, os representantes defenderam a robustez das investigações conduzidas nos casos de maior impacto para os investidores.

