A flexibilização das políticas de controle de armas nos Estados Unidos, sob a gestão de Donald Trump, tem gerado preocupações que transcendem as fronteiras americanas. O governo dos EUA revisa atualmente dezenas de normas com o objetivo de ampliar o acesso a armamentos, sob a justificativa de proteger o direito constitucional ao porte de armas. Entre as propostas em análise pelo Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF), destaca-se a possibilidade de facilitar a compra online e a entrega postal de fuzis, eliminando a necessidade de verificação presencial de antecedentes criminais.
Impactos globais e o risco para o Brasil
Especialistas em segurança pública alertam que a desregulamentação do mercado varejista americano pode ter efeitos colaterais graves para o Brasil. O país é um dos principais destinos de armas desviadas do mercado legal dos EUA, que abastecem facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Embora a administração Trump tenha classificado esses grupos como organizações terroristas, especialistas como Bruno Langeani, do Instituto Sou da Paz, questionam a eficácia dessa medida sem uma fiscalização rigorosa sobre as lojas de armas na Flórida, frequentemente citadas em rastreamentos de armamentos apreendidos em território brasileiro.
A dinâmica do tráfico internacional de fuzis
O tráfico de armas para o Brasil ocorre por meio de rotas complexas. Muitas vezes, compradores sem antecedentes criminais adquirem os itens legalmente nos EUA, que são posteriormente desmontados e ocultados em mercadorias comuns, como fornos e prensas hidráulicas, para atravessar as fronteiras. Em maio, um fuzil AK-47 foi interceptado no Aeroporto de Viracopos dessa maneira. Em outra ocasião, a Polícia Rodoviária Federal realizou no Paraná a maior apreensão de fuzis da sua história, com 26 unidades, sendo 22 delas da marca americana Colt.
Desafios na identificação e combate ao crime
O cenário de apreensões no Brasil é alarmante. Dados do Instituto Sou da Paz indicam que, em 2025, foram 2.152 fuzis apreendidos, um aumento de 167% em comparação a 2021. Contudo, o diagnóstico do problema enfrenta obstáculos. Enquanto relatórios da Polícia Militar do Rio de Janeiro apontam que quase a totalidade das armas apreendidas em 2024 seria de fabricação estrangeira, especialistas alertam para a proliferação de fábricas clandestinas que produzem réplicas ou armas falsificadas, o que dificulta a rastreabilidade e a criação de políticas públicas eficientes.
Exportações e o papel da indústria armamentista
Além da venda doméstica, a revogação de restrições para exportações de armamentos civis para 36 países considerados sensíveis, ocorrida em setembro de 2025, também é alvo de críticas. A Anistia Internacional aponta que uma parcela significativa das armas americanas recuperadas em cenas de crimes no exterior possui origem em exportações licenciadas. Para organizações como a Small Arms Survey, o problema central reside na permissividade do mercado americano, onde transações suspeitas ocorrem dentro da legalidade, dificultando a responsabilização de vendedores mesmo quando o destino final do armamento são grupos criminosos transnacionais.
O debate sobre a regulação americana permanece em aberto, enquanto autoridades brasileiras buscam estratégias para conter o fluxo de armamento pesado que alimenta a violência urbana. Para acompanhar desdobramentos sobre segurança pública, política internacional e outros temas relevantes, continue acompanhando o portal Conexrs, seu compromisso diário com a informação apurada e contextualizada.
Fonte: bbc.com
