A partir de 3 de setembro, o Brasil enfrenta um desafio comercial significativo: a suspensão das exportações de carne bovina, frango, mel e outros produtos de origem animal para a União Europeia (UE). A medida, que impacta um dos maiores mercados compradores do país, não é uma punição isolada, mas o desdobramento de uma política rigorosa do bloco europeu contra o uso de antibióticos como promotores de crescimento na pecuária.
Embora o tema tenha ganhado tração com o recente acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, a restrição europeia não é uma cláusula nova. A norma vigora desde 2019 e aplica-se de maneira uniforme a todos os países que desejam acessar o mercado do bloco. O cerne da questão reside na saúde pública global e no combate à resistência antimicrobiana, um fenômeno que preocupa autoridades sanitárias em todo o mundo.
O impacto da resistência antimicrobiana na saúde pública
A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que a resistência aos antibióticos cresceu mais de 40% entre 2018 e 2023, com um aumento anual que varia entre 5% e 15%. O diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus, tem classificado esse avanço como uma ameaça direta à medicina moderna. O uso contínuo de doses baixas de antibióticos para acelerar o ganho de peso dos animais cria um ambiente propício para a seleção de bactérias resistentes, que podem, eventualmente, infectar seres humanos.
A ciência aponta que a transmissão via consumo de carne é apenas uma das vias. Entre 75% e 90% dos antibióticos administrados no gado são eliminados pelos animais sem metabolização. Ao serem excretados na urina e nas fezes, esses resíduos contaminam o solo e os recursos hídricos, espalhando bactérias resistentes no meio ambiente. Além disso, trabalhadores rurais e veterinários que mantêm contato direto com o rebanho estão expostos a riscos ocupacionais constantes.
Produtividade versus exigências sanitárias
O uso de antibióticos como promotores de crescimento é uma prática que visa o ganho de eficiência. Um meta-estudo publicado em 2025 pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) demonstrou que animais tratados com esses medicamentos apresentam um ganho de peso diário superior, além de um aproveitamento mais eficiente da ração. Para o produtor, a eliminação dessas substâncias representa um desafio econômico direto.
No Brasil, a proibição de substâncias como avoparcina, bacitracina e virginiamicina foi oficializada apenas em abril de 2026. A União Europeia, em contrapartida, adotou medidas similares há duas décadas. A discrepância temporal e a diferença nos modelos de fiscalização criaram o impasse atual: enquanto a UE exige sistemas de controle auditáveis e transparentes, o Brasil ainda baseia parte de sua verificação em autodeclarações, um modelo considerado insuficiente pelos técnicos europeus.
A corrida do governo brasileiro por adequação
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) já reconhecia, em parecer interno de março deste ano, que o sistema de fiscalização brasileiro não estava alinhado aos padrões exigidos pelo bloco. Após a votação da exclusão do Brasil da lista de exportadores habilitados, ocorrida em 12 de maio, o governo intensificou as ações. Em 3 de julho, um ofício do Mapa determinou que frigoríficos habilitados implantem mecanismos de controle auditáveis.
O prazo final de 3 de setembro aproxima-se como um divisor de águas para o agronegócio nacional. Até o momento, a plena operacionalidade desse novo sistema de auditoria ainda é uma incógnita. O Conexrs segue acompanhando os desdobramentos desta crise sanitária e comercial, trazendo a você, leitor, a análise necessária sobre os impactos na economia e na saúde pública. Continue conectado ao nosso portal para atualizações sobre este e outros temas fundamentais para o Brasil.
Fonte: seudinheiro.com
