Polícia investiga se medicamento importado para paciente com câncer continha produto diferente do indicado na embalagem

Polícia investiga se medicamento importado para paciente com câncer continha produto diferente do indicado na embalagem

Rio Grande do Sul

Uma investigação da Polícia Civil do Rio Grande do Sul colocou sob suspeita a procedência de um medicamento importado utilizado no tratamento de um paciente com câncer. A apuração, conduzida pela Delegacia de Proteção ao Consumidor, Saúde Pública e da Propriedade Intelectual, Imaterial e Industrial (DECON), levou ao cumprimento de um mandado de busca e apreensão em uma empresa localizada em Itajaí, em Santa Catarina. O produto investigado era apresentado como Lorlatinib 100 mg.

A suspeita surgiu depois que o paciente utilizou o medicamento durante um período considerado suficiente e não percebeu os efeitos esperados do tratamento. A partir daí, os investigadores passaram a verificar a autenticidade do produto e a origem da medicação. Durante as diligências, pesquisas em bases de dados e fontes comerciais estrangeiras apontaram uma possível correspondência entre o material analisado e uma expressão em chinês associada a uma bala macia, descrita como “soft candy”, com sabor de taro. Fotografias também apresentaram semelhanças com um produto comercializado na China.

A descoberta, porém, ainda não permite afirmar que o conteúdo da embalagem fosse uma bala ou qualquer outro produto alimentício. Essa é uma hipótese levantada durante a investigação e precisará ser confirmada ou descartada por exames laboratoriais. O material apreendido será submetido à perícia para identificar sua composição e determinar se, de fato, correspondia ao medicamento informado na embalagem. A Polícia Civil também busca descobrir quando, onde e por quem uma eventual substituição ou adulteração teria ocorrido.

O caso chama atenção para uma etapa especialmente sensível do acesso a medicamentos de alto custo: a cadeia de importação e distribuição. Medicamentos destinados a tratamentos oncológicos podem ser obtidos em determinadas circunstâncias por meio de decisões judiciais e processos de importação, o que exige mecanismos capazes de garantir a procedência, a conservação e a rastreabilidade do produto até chegar ao paciente. A própria Anvisa alerta que medicamentos importados devem ter origem conhecida e recomenda que pacientes verifiquem a regularidade das empresas envolvidas e as características da embalagem, do lote e da validade.

O episódio também ocorre em um cenário de crescente preocupação das autoridades gaúchas com possíveis fraudes envolvendo medicamentos contra o câncer. Em junho, a Operação Placebo investigou um esquema suspeito de fornecimento de medicamentos oncológicos de alto custo, pagos com recursos públicos por meio de processos judiciais. A investigação alcançou dezenas de pacientes e apontou suspeitas de adulteração e falsificação de medicamentos. Em setembro, a Polícia Civil ainda analisava mais de 60 ações judiciais relacionadas à obtenção dessas medicações na Fronteira Oeste.

Apesar das semelhanças relacionadas ao tipo de produto e ao risco para pacientes, a nova investigação deve ser tratada separadamente até que as autoridades estabeleçam eventual conexão entre os casos. Na Operação Efeito Colateral, a Polícia Civil ainda trabalha para reconstruir a trajetória do produto, identificar sua origem e esclarecer quem participou de sua importação, distribuição ou eventual adulteração. A investigação permanece sob sigilo.

Mais do que uma possível fraude comercial, o episódio expõe a vulnerabilidade de pacientes que dependem de medicamentos específicos para enfrentar doenças graves. Quando existe suspeita de que um produto apresentado como medicamento possa não conter o princípio ativo esperado, o problema deixa de envolver apenas o consumidor e passa a atingir diretamente a segurança do tratamento. Por isso, o resultado da perícia será decisivo para determinar o que havia dentro da embalagem e quais responsabilidades poderão ser atribuídas aos envolvidos.

Imagem ilustrativa/ConexRS

Fonte: manual-1791414636265