Rastreabilidade ambiental redefine estratégia de exportação do agro brasileiro

Rastreabilidade ambiental redefine estratégia de exportação do agro brasileiro

Geral

Os primeiros 100 dias de vigência do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia trouxeram um cenário de oportunidades e desafios práticos para o agronegócio brasileiro. Embora o tratado tenha permitido que cerca de 5 mil produtos do bloco sul-americano entrassem no mercado europeu com alíquota zero, a abertura de portas não se traduziu em um caminho livre de exigências. A complexidade das normas ambientais, especialmente o regulamento europeu conhecido como EUDR, impõe um novo ritmo à cadeia produtiva nacional.

O papel do Rasoe na organização dos dados

Para mitigar os gargalos de conformidade, o governo federal oficializou, em 8 de setembro, o Relatório de Análise Socioambiental para Operações de Exportação (Rasoe). A medida, aprovada pela Camex, confere status formal ao documento, que centraliza informações de diversas bases públicas para auxiliar exportadores agropecuários a comprovarem a regularidade de suas operações. A iniciativa busca reduzir a fragmentação de dados, um dos principais entraves que encarecem o custo de conformidade no setor.

Entretanto, especialistas alertam que o Rasoe não deve ser interpretado como uma certificação universal ou substituto automático para as exigências europeias. O regulamento da União Europeia demanda evidências específicas sobre geolocalização, legalidade e avaliação de risco que vão além do que o relatório oferece. Portanto, a utilidade do documento deve ser analisada caso a caso, servindo como um instrumento complementar de transparência para garantir a resposta completa aos compradores internacionais.

Desafios na validação e o peso do Código Florestal

A eficácia das ferramentas de rastreabilidade esbarra, muitas vezes, na qualidade dos dados primários. O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) reforça que o Rasoe não corrige inconsistências em cadastros. A validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR), por exemplo, ainda apresenta disparidades regionais significativas. Enquanto estados como o Piauí registraram um salto na análise de sua base, saindo de menos de 1% para 78% em setembro de 2026, outras regiões enfrentam filas de processamento que dificultam a celeridade comercial.

Na pecuária, o cenário é ainda mais complexo devido à dinâmica dos fornecedores indiretos. Como o gado transita por múltiplas propriedades até chegar ao frigorífico, a rastreabilidade precisa ser absoluta. Um estudo conjunto da CNI e do Ipam, intitulado “Cadeias Produtivas, Indústria e a Implementação do Código Florestal”, defende que o cumprimento da legislação ambiental brasileira deve ser tratado como uma infraestrutura de confiança. A ideia é que a conformidade com o Código Florestal seja o pilar para garantir o acesso a mercados exigentes.

Transparência como vantagem competitiva

A transição para um modelo de exportação baseado em evidências ambientais sólidas é irreversível. O Brasil detém um volume expressivo de dados sobre sua produção, mas o desafio atual reside na capacidade de transformar essas informações em provas de sustentabilidade que sejam aceitas globalmente. A estratégia de exportação, portanto, migra da simples conquista de mercado para a demonstração contínua de boas práticas.

O setor agropecuário nacional segue em um processo de adaptação constante para atender às demandas de investidores e consumidores europeus. Acompanhar essas mudanças é essencial para manter a competitividade do produto brasileiro no exterior. Continue acompanhando o ConexRS para se manter informado sobre os desdobramentos das políticas de comércio exterior e o impacto das novas exigências ambientais na economia regional e nacional.

Fonte: canalrural.com.br