O Brasil consolidou-se como o terceiro maior produtor de frutas do mundo, movimentando cerca de R$ 15 bilhões anuais em cadeias produtivas estratégicas como a manga, a uva e a maçã. No entanto, o brilho desse sucesso econômico esconde uma realidade precária no campo. Um estudo recente intitulado Dinâmicas do Trabalho Assalariado Rural, conduzido pela Oxfam Brasil em parceria com a Molina Consulting, aponta que a sustentabilidade financeira desse setor bilionário repousa, em grande parte, sobre a exploração sistemática da mão de obra.
A pesquisa, que focou em polos produtivos cruciais como o Vale do São Francisco, entre Pernambuco e Bahia, e a Serra Gaúcha, no Rio Grande do Sul, revela um ciclo de violações trabalhistas que inclui jornadas exaustivas, exposição a riscos ocupacionais e um processo constante de descarte de trabalhadores. O documento sugere que o agronegócio de exportação tem tratado o capital humano como um insumo temporário, dificultando qualquer possibilidade de ascensão social para aqueles que sustentam a colheita.
Vulnerabilidade e omissão na fiscalização
A ausência de uma fiscalização robusta é apontada como um dos principais fatores que permitem a perpetuação de abusos. Segundo Viviana Santiago, diretora executiva da Oxfam Brasil, a riqueza gerada pela exportação não é socializada, mas sim extraída da vulnerabilidade histórica dos trabalhadores. O relato de jornadas que superam 16 horas diárias, somado a condições climáticas extremas — como o frio rigoroso na Serra Gaúcha ou o calor intenso no Nordeste —, evidencia um cenário de adoecimento crônico.
O estudo destaca ainda a subnotificação de acidentes de trabalho. No Vale do São Francisco, estimativas de lideranças sindicais indicam que para cada caso formal de intoxicação por agrotóxicos registrado nas unidades de saúde, existem cerca de cinquenta ocorrências reais. A falta de efetivo suficiente no Ministério Público do Trabalho (MPT) para cobrir a vasta extensão das fazendas brasileiras é um gargalo que, segundo a entidade, precisa ser urgentemente superado para garantir a dignidade no campo.
Rotatividade e o descarte da mão de obra
A estabilidade no emprego é um conceito distante para a maioria dos trabalhadores rurais. Dados de 2024 mostram que, das mais de 117 mil contratações formais nas regiões analisadas, apenas 39,2% dos contratos permaneciam ativos ao final do ano. Esse alto índice de rotatividade demonstra que, mesmo com a carteira assinada, o trabalhador permanece em um estado de insegurança constante, sendo desligado assim que o ciclo de colheita se encerra.
Além da instabilidade, o setor enfrenta o desafio da mecanização. Em algumas culturas, como a da manga, a introdução de novas tecnologias tem reduzido drasticamente o número de postos de trabalho, sem que haja uma política pública de transição ou requalificação para os profissionais afetados. Esse movimento, aliado à alta taxa de informalidade — que atinge quase 70% do setor agropecuário nacional —, projeta um futuro de desamparo previdenciário para milhares de famílias.
Desigualdade estrutural no campo
O estudo da Oxfam também traz à tona o peso das desigualdades de gênero e raça na composição salarial. Mulheres negras ocupam a base da pirâmide, recebendo, em média, R$ 1.449 mensais, enquanto homens brancos na mesma atividade auferem R$ 2.494. Essa disparidade, somada aos baixos níveis de escolaridade, cria um ciclo de pobreza difícil de romper. A Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas) foi procurada para comentar as denúncias, mas até o momento, não apresentou posicionamento oficial.
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Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

