A busca por sistemas agrícolas mais resilientes diante das mudanças climáticas tem levado a ciência brasileira a olhar com atenção para o arroz de sequeiro, também conhecido como arroz de terras altas. Em um cenário onde a produção nacional é fortemente concentrada no sistema irrigado, o programa Melhor Arroz, conduzido pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), avança no desenvolvimento de linhagens adaptadas para enfrentar períodos de escassez hídrica sem comprometer a produtividade.
O projeto, que se consolidou como uma referência na área, busca oferecer aos agricultores alternativas que permitam a diversificação das lavouras. Com a linhagem CMG1590 em fase final de registro junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), a expectativa é que novas opções genéticas cheguem em breve ao mercado, integrando características como precocidade, qualidade de grãos e maior resistência ao estresse ambiental.
Desafios da concentração produtiva e segurança alimentar
Atualmente, dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam que mais de 80% do arroz produzido no Brasil provém do cultivo inundado, com forte concentração geográfica no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Tocantins. Essa dependência de regiões específicas expõe o abastecimento nacional a riscos elevados, como demonstrado por eventos climáticos extremos recentes.
A coordenadora do programa, Flávia Barbosa Silva Botelho, destaca que a diversificação das áreas de cultivo é uma estratégia fundamental para a segurança alimentar do país. Como o Brasil é o maior produtor de arroz fora do continente asiático, com uma produção anual próxima a 11 milhões de toneladas, qualquer quebra de safra em polos tradicionais gera um impacto difícil de ser compensado via importações, dada a escala da demanda interna.
Sustentabilidade e integração nos sistemas de produção
Além da resiliência climática, o arroz de sequeiro apresenta vantagens ambientais importantes. O cultivo em terras altas reduz a necessidade de grandes volumes de água e mitiga a emissão de metano, um gás de efeito estufa frequentemente associado aos sistemas de inundação. Essa característica alinha a cultura às crescentes exigências por práticas agrícolas mais sustentáveis.
A inserção do arroz em sistemas de rotação com culturas como soja, milho, feijão e trigo também oferece benefícios agronômicos diretos. A alternância de culturas auxilia no manejo de plantas daninhas resistentes, que muitas vezes se tornam um problema crônico em áreas de monocultura intensiva com uso recorrente de herbicidas como o glifosato. Ao introduzir o arroz, o produtor ganha novas ferramentas de controle e melhora o equilíbrio biológico do solo.
Tecnologia de ponta para enfrentar a seca
Para superar o principal gargalo do sistema de sequeiro — a sensibilidade à falta de chuva —, a UFLA tem investido em biotecnologia avançada. Em uma colaboração internacional com a Universidade de Arkansas, nos Estados Unidos, pesquisadores utilizam a técnica de edição gênica CRISPR-Cas9 para identificar e modificar sequências genéticas que conferem maior tolerância ao estresse hídrico.
O programa, que teve origem em 2010 e foi estruturado na UFLA em 2013 com o apoio da Embrapa Arroz e Feijão e da Epamig, já formou dezenas de mestres e doutores, consolidando uma base científica robusta. O compromisso do ConexRS é manter você informado sobre os avanços que transformam o campo brasileiro. Continue acompanhando nosso portal para mais análises sobre tecnologia, economia e o futuro do agronegócio nacional.
Para saber mais sobre os avanços em pesquisa agrícola, consulte o portal oficial da Universidade Federal de Lavras.
Fonte: portaldoagronegocio.com.br

