Ibovespa desaba e dólar dispara após reeleição de Lula surpreender os mercados

Ibovespa desaba e dólar dispara após reeleição de Lula surpreender os mercados

Economia

O investidor brasileiro acordou nesta segunda-feira (26) com a ressaca de uma eleição que o mercado não esperava. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito e a bolsa desaba — a B3 teve o primeiro circuit breaker desde a pandemia, o mecanismo que paralisa as negociações quando a queda passa de 10%.

Para o JP Morgan, a sangria tem explicação: o mercado havia embutido nos preços um resultado materialmente diferente do que saiu das urnas no domingo (25). Depois do primeiro turno, Flávio Bolsonaro (PL) apareceu na frente, e a maioria das pesquisas mostrava o senador numericamente à frente de Lula na véspera da votação.

Os mercados de apostas davam cerca de 75% de chance de vitória dele, mas Lula virou o jogo e venceu com quase 52% dos votos válidos, ajudado por uma participação maior no segundo turno. Quando o preço anda em uma direção e o resultado vai para a outra, o acerto de contas costuma ser brusco e imediato nos pregões.

Ibovespa: o desconto que o mercado dá

Para medir o tamanho do ajuste, o JP Morgan usa o indicador preço/lucro (P/L), que mostra quantas vezes o lucro esperado das empresas para os próximos 12 meses o investidor aceita pagar pelas ações. Na sexta-feira (23), o P/L da bolsa brasileira fechou em 9,7 vezes.

O time de análise olhou para os últimos dez anos e dividiu a história desse indicador em quatro faixas, de crise a correção estrutural. A conclusão é que o resultado da eleição deve levar a bolsa imediatamente à média da segunda faixa, de 8,3 vezes, o equivalente a uma queda de 14%.

Depois, segundo o JP Morgan, o mercado pode se acomodar mais embaixo, entre a segunda e a primeira faixa, perto de 7 vezes, o que representa um tombo de 28%. O banco havia elevado a recomendação para a bolsa brasileira em 5 de outubro, apostando em mudança de política econômica, mas a vitória de Lula colocou as projeções sob revisão.

Ações: quem sofre mais e quem aguenta melhor

As empresas ligadas ao ciclo doméstico estão entre as mais expostas, o que já pode ser visto no pregão com a Magazine Luiza (MGLU3) liderando as maiores perdas do Ibovespa e queda superior a 57% no início da tarde. Também sofrem as small caps, as companhias de menor valor de mercado e maior oscilação.

Na outra ponta, as exportadoras tendem a se sair melhor porque ganham com um real mais fraco. Nesta segunda-feira (26), o dólar saltou para a casa de R$ 5,50 e colocou a Suzano (SUZB3) na liderança das maiores altas do Ibovespa, seguida por Embraer (EMBJ3) e WEG (WEGE3).

O cenário reflete o temor de que o ajuste fiscal esperado pelo mercado não ocorra nos moldes desejados. O JP Morgan lembra o que aconteceu entre o fim de novembro e dezembro de 2024, quando o governo anunciou isenção de imposto de renda e gerou forte volatilidade nos ativos.

Dólar: de volta ao radar e à casa de R$ 5,50

O JP Morgan rebaixou a recomendação para o real de overweight para market weight. Em um cenário de resultado visto como desfavorável para o ajuste fiscal, a projeção é de dólar a R$ 5,50, o equivalente a uma desvalorização de 10% da moeda nacional.

Há explicações técnicas para o movimento, já que, em torno de R$ 5,00, a cotação embutia cerca de 85% de chance de troca de comando no Palácio do Planalto. Com a continuidade da gestão atual, as posições compradas na moeda estrangeira reagiram fortemente de forma assimétrica.

O próprio banco prefere esperar a poeira baixar antes de apostar contra o real, pois carregar essa posição custa caro devido ao patamar elevado da taxa básica de juros. A trajetória cambial, segundo os especialistas, dependerá diretamente dos acenos políticos da equipe econômica.

Juros: o ponto mais sensível da economia

O JP Morgan também alterou a recomendação para juros de compra para neutra, mas com viés de alta. O cenário pessimista do banco mira um patamar de 15,5% de rendimento nos títulos públicos em reais, exigindo cautela antes de novas movimentações de alocação.

A razão de tanto cuidado institucional é o risco de formação de um ciclo vicioso na economia. O dólar em alta pressiona as expectativas inflacionárias e fiscais, o que eleva o prêmio de risco cobrado pelos investidores e retroalimenta a desvalorização dos ativos locais.

O time de análise cita ainda que o Banco Central tem vagas abertas na diretoria e se prepara para novas reuniões do Copom em um ambiente de inflação persistente. Para mais detalhes sobre a movimentação da renda fixa, consulte a cobertura completa no Seu Dinheiro.