Quarenta e dois anos após o feito inédito, a travessia do Atlântico Sul em um barco a remo, narrada por Amyr Klink no livro Cem Dias Entre Céu e Mar, ganha as telas do cinema na adaptação dirigida por Carlos Saldanha em 100 Dias, com estreia marcada para 29 de outubro.
Aos 71 anos, o navegador rejeita os rótulos de herói e aventureiro. Para ele, o verdadeiro sucesso da expedição realizada em 1984 não esteve na ousadia, mas sim no planejamento rigoroso e na preparação minuciosa que antecederam a partida de Lüderitz, na Namíbia, rumo a Salvador.
Formação e disciplina no mar
O livro que eternizou a jornada funciona como um diário de bordo enriquecido por uma linguagem literária sensível. Antes de se dedicar integralmente à carreira marítima, Amyr construiu uma sólida base teórica e acadêmica, estudando economia na USP e passando pela experiência corporativa em um banco.
Essa trajetória singular permitiu que ele estruturasse o projeto da embarcação ao longo de dois anos. A formação náutica, somada a influências literárias consolidadas em livrarias tradicionais de São Paulo, moldou a visão pragmática que o navegador mantém até hoje sobre desafios extremos.
Crítica ao mercado de coaches
Com mais de três mil palestras no currículo, Amyr Klink adota uma postura cética em relação à proliferação de palestrantes motivacionais no Brasil atual. Ele aponta uma desconexão entre a teoria propagada por esses profissionais e a vivência prática nos negócios.
Segundo o navegador, muitos consultores oferecem conselhos sobre setores em que nunca atuaram de fato. Sua recomendação prática para quem deseja empreender segue uma linha direta e desprovida de fórmulas mágicas: começar pequeno, agir com constância e evitar a espera pelo momento ideal.
Solidão e hiperconexao
Durante os cem dias isolado no oceano, longe de sofrer com a solidão, o navegador mantinha contato com transmissões de rádio e gravações de artistas como Vinícius de Moraes e Elomar. Para ele, a solitude autêntica traz mais clareza do que o excesso de estímulos digitais da atualidade.
Navegando originalmente apenas com o auxílio de um sextante, Klink avalia que a conectividade constante nos dias de hoje pode gerar ansiedade e atrapalhar o desempenho de quem precisa tomar decisões solitárias. Enquanto isso, a nova geração da família segue explorando novas formas de comunicação pública com a internet.
A chegada aos cinemas
O impacto da história de vida do navegador ganha nova dimensão com o lançamento do longa estrelado por Filipe Bragança, cujo filme integra a lista de pré-selecionados para o Oscar. A produção exigiu intensa preparação física do ator, que emagreceu e aprendeu a remar para traduzir fielmente a odisseia vivida no Atlântico.

