Entre a visibilidade e a margem: o impacto real do Wellhub e Totalpass nas academias

Entre a visibilidade e a margem: o impacto real do Wellhub e Totalpass nas academias

DESTAQUES

O cenário do mercado fitness brasileiro passou por uma transformação profunda na última década. O modelo tradicional, que exigia matrículas individuais em diferentes estúdios para musculação, natação ou artes marciais — com custos mensais que facilmente ultrapassavam a marca de R$ 1 mil —, perdeu espaço para a conveniência dos agregadores de bem-estar. Plataformas como Wellhub (antigo Gympass) e TotalPass consolidaram-se como protagonistas, conectando empresas, colaboradores e uma vasta rede de estabelecimentos físicos.

Com mensalidades que oscilam entre R$ 39,90 e patamares superiores a R$ 700, esses aplicativos oferecem aos usuários a flexibilidade de treinar em diferentes locais. Para as companhias, o benefício tornou-se uma ferramenta estratégica de retenção de talentos e promoção de saúde corporativa. Contudo, nos bastidores do setor, a relação entre os donos de academias e essas gigantes da tecnologia é marcada por um debate constante: seriam elas aliadas indispensáveis ou um risco à rentabilidade dos negócios?

Estratégia para captação de novos públicos

A principal justificativa para a adesão de milhares de unidades a essas plataformas é a capacidade de alcançar um público que, de outra forma, não frequentaria o espaço. Felipe Barth, CEO da rede Panobianco, que opera 430 unidades, aponta que o modelo funciona como uma vitrine. Com planos acessíveis via aplicativo, a rede consegue atrair perfis específicos, como a geração Z, que prioriza a tecnologia e a flexibilidade. Segundo o executivo, cerca de 70% dos novos usuários dessa faixa etária chegam à academia por meio desses programas.

Essa percepção de captação orgânica é compartilhada por redes de alto padrão, como a Bio Ritmo, integrante do ecossistema do Grupo Smart Fit. Para Vinícius Santana, country manager do grupo, o uso dos aplicativos serve como uma porta de entrada. Ao experimentar a infraestrutura através de um crédito, o aluno descobre a variedade de modalidades oferecidas, o que pode resultar em uma fidelização a longo prazo dentro do ecossistema da marca.

A matemática por trás da rentabilidade

Do ponto de vista financeiro, a discussão gira em torno da chamada receita incremental. Um estudo da Ernst & Young indica que, a cada R$ 3 gerados via plataforma, R$ 2 representam um ganho que não existiria sem o aplicativo. Essa entrada de capital é fundamental para diluir os custos fixos das academias, como aluguel, manutenção de equipamentos e folha de pagamento. Analistas do BTG Pactual reforçam que, embora o tíquete médio por visita possa ser inferior ao de um aluno tradicional, o aumento na ocupação das unidades compensa a pressão sobre as margens.

Além da receita operacional, as plataformas têm atuado como facilitadoras de crédito. Com o acesso ao financiamento bancário tradicional cada vez mais restrito e oneroso para pequenos e médios empreendedores, os agregadores passaram a oferecer linhas de crédito com taxas competitivas, descontadas diretamente dos recebíveis dos parceiros. Segundo Guilherme Gabriele, do Wellhub, essa é uma forma de garantir que a rede de parceiros continue crescendo e investindo em melhorias.

Desafios para o pequeno empreendedor

Apesar do otimismo das grandes redes, o cenário é visto com cautela por academias de bairro. Dori Edson Vieira, fundador da Visão Fitness, em São Paulo, exemplifica o dilema: a falta de previsibilidade do faturamento. Diferente do aluno de balcão, que paga uma mensalidade fixa, o usuário de aplicativo gera receita por check-in. Fatores externos, como feriados, condições climáticas ou períodos de férias, impactam diretamente a frequência e, consequentemente, o fluxo de caixa do estabelecimento.

Além disso, a existência de uma “trava” de preço, que limita o repasse total quando o volume de visitas atinge determinado patamar, gera questionamentos sobre a sustentabilidade do modelo para negócios menores. Para esses empreendedores, o benefício da visibilidade digital é inegável, mas a conta final exige um controle rigoroso para que a parceria não comprometa a saúde financeira da empresa. O mercado segue em busca de um equilíbrio que concilie a conveniência tecnológica com a viabilidade dos espaços físicos.

O Conexrs acompanha de perto as transformações no mercado de serviços e o impacto da tecnologia nos negócios locais. Continue conosco para mais análises sobre economia, comportamento e as tendências que moldam o cotidiano brasileiro.

Fonte: seudinheiro.com