A rotina de quem vive entre o mar e a incerteza política
Aos 78 anos, Arnor da Cruz Conceição conhece o ritmo das marés de Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro, melhor do que os meandros da política nacional. Trabalhador do mar desde os 12 anos, o hoje barqueiro transita entre as memórias da pesca artesanal — atividade que sustentou gerações em sua família — e a realidade do turismo, que se tornou a principal engrenagem econômica da região. Sentado na popa de sua embarcação, ele reflete sobre o cenário atual com a mesma cautela que usa para navegar em dias de vento forte.
Para Arnor, a política é um terreno movediço, comparável às paixões do futebol. Em 2022, ele optou por Jair Bolsonaro (PL), embora hoje admita certa confusão sobre os marcos temporais das gestões presidenciais. Essa hesitação não é incomum em um país onde o debate público é intenso, mas muitas vezes desconectado das necessidades imediatas de quem vive da informalidade. Para ele, o voto é uma escolha que se faz sem grandes convicções ideológicas, movido mais por uma expectativa de melhora do que por alinhamento partidário.
O peso do cotidiano e o papel do benefício social
A transição da pesca para o turismo trouxe novos desafios financeiros. Embora o valor cobrado por hora de passeio — cerca de R$ 150 — ajude a compor a renda, a sazonalidade é um obstáculo constante. Nos meses de outono e inverno, o movimento cai drasticamente, deixando Arnor dias seguidos sem clientes. É nesse cenário de vulnerabilidade que o Benefício de Prestação Continuada (BPC) se torna essencial.
O auxílio, destinado a idosos de baixa renda, funciona como uma rede de proteção que permite a manutenção do barco, um ativo caro e de desgaste contínuo. Arnor da Cruz Conceição vê o benefício não como um privilégio, mas como uma necessidade básica para quem, como ele, nunca teve um salário fixo ou uma carreira formal. Essa realidade reflete a de milhares de brasileiros que dependem de políticas públicas para equilibrar as contas diante de uma economia instável e do alto custo de manutenção de seus instrumentos de trabalho.
A desilusão com as urnas e o futuro das novas gerações
Apesar de reconhecer a importância das eleições municipais para o dia a dia de Paraty, o barqueiro confessa que a fadiga do trabalho falou mais alto em 2024, levando-o a se abster do pleito. Para ele, a política local é o que realmente impacta a infraestrutura e o bem-estar da comunidade, mas o cansaço físico e a desilusão com o sistema parecem pesar mais do que o dever cívico. O voto, que para ele é facultativo devido à idade, tornou-se algo secundário.
Apesar da incerteza sobre seu próprio engajamento eleitoral, Arnor demonstra otimismo ao falar de sua família. Ele comemora o fato de seus netos terem planos de cursar medicina, um sinal de que a mobilidade social, ainda que lenta, é uma aspiração presente em sua linhagem. Enquanto observa o movimento no cais, ele segue acompanhando as notícias pelos telejornais e pelo celular, tentando decifrar o futuro do país enquanto garante o sustento no presente.
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Fonte: redir.folha.com.br
