Debate sobre políticas de drogas e justiça social ganha destaque em Fortaleza

Debate sobre políticas de drogas e justiça social ganha destaque em Fortaleza

Saúde

Durante a segunda edição da feira Febre de Arte, realizada em Fortaleza, especialistas e ativistas promoveram um debate contundente sobre a necessidade de reformular as políticas de drogas no Brasil. O evento, sediado no Anfiteatro Sérgio Motta, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, serviu como palco para uma convocação direta ao eleitorado: a importância de eleger representantes comprometidos com uma abordagem que integre a regulação de substâncias à justiça social.

A intersecção entre saúde e proibicionismo

A médica de família e comunidade Magda Almeida, docente da Universidade Federal do Ceará (UFC), destacou que o debate sobre o uso de substâncias é frequentemente reduzido a preconceitos ideológicos. Segundo a especialista, a demonização da cannabis ignora potenciais terapêuticos e mascara os riscos de medicamentos convencionais, como a pregabalina. Utilizada para tratar ansiedade e dor crônica, essa medicação pode gerar efeitos colaterais graves, incluindo alterações de humor e risco de suicídio, caso não seja monitorada adequadamente.

Dados da Blis Data apontam que mulheres mais velhas e economicamente ativas são o principal público do mercado de cannabis medicinal importada no país, buscando alívio para distúrbios do sono e dores crônicas. O 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III) reforça essa tendência ao mostrar que o uso de cannabis dobrou entre adultos e adolescentes na última década, atingindo cerca de 3,9 milhões de brasileiros.

O custo humano e financeiro da proibição

O evento também abordou o impacto da chamada “guerra às drogas” na segurança pública e no sistema prisional. O advogado Italo Coelho traçou um paralelo entre a perseguição histórica a manifestações culturais, como o samba e a capoeira, e as barreiras impostas ao uso da cannabis. Para o especialista, há uma contradição evidente quando a indústria farmacêutica lucra com derivados da planta enquanto indivíduos continuam sendo criminalizados por posse de pequenas quantidades.

A dimensão econômica dessa política é alarmante. Um relatório da Pastoral Carcerária Nacional revelou que famílias de detentos gastam, em média, 70% de um salário mínimo para garantir itens básicos de higiene e alimentação aos parentes encarcerados. Somado a isso, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima que o custo dos homicídios relacionados ao tráfico e à proibição alcance R$ 50 bilhões anuais, representando 0,77% do PIB nacional.

Segurança pública e o cotidiano das periferias

A coordenadora da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (Renfa), Tamára Silva, argumentou que a estratégia atual de segurança pública, focada quase exclusivamente na repressão, tem falhado em conter a influência de facções e milícias. Pesquisas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que 68,7 milhões de brasileiros vivem em áreas onde a presença do crime organizado é percebida, com impactos diretos na violência cotidiana e na qualidade de vida dessas comunidades.

A Febre de Arte, organizada pela Agência Liamba 360° e pela Adapta Associação Canábica, buscou dar visibilidade a essas pautas através de painéis e da “Rua das Associações”, um espaço dedicado a organizações do Nordeste que auxiliam pacientes em tratamento medicinal. O ConexRS segue acompanhando os desdobramentos desse debate, que toca em pontos cruciais da saúde pública, dos direitos humanos e da economia nacional. Continue conosco para mais informações sobre temas que impactam a sociedade brasileira.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br