Convergência técnica em meio à disputa eleitoral
Em um cenário de polarização política, as propostas para o futuro do Sistema Único de Saúde (SUS) apresentadas pelos conselheiros de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) revelaram uma convergência técnica inesperada. Durante evento realizado nesta terça-feira (8), organizado pelo canal Amado Mundo, os representantes das campanhas detalharam visões que, apesar das diferenças ideológicas de seus candidatos, tocam em pontos comuns para a modernização da rede pública até 2030.
O atual ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e o médico Cláudio Lottenberg, indicado por Flávio para assumir a pasta em caso de vitória, defenderam o fortalecimento da indústria nacional de insumos e medicamentos. Ambos concordam com a necessidade de uma transição no modelo de remuneração dos serviços, migrando do pagamento por procedimento isolado para um sistema baseado no desfecho clínico e na eficiência do cuidado ao paciente.
A visão de continuidade e modernização
Cláudio Lottenberg adotou um tom pragmático ao avaliar o sistema atual. Em sua fala, classificou o SUS como uma “estrutura vitoriosa” que demanda aperfeiçoamentos, em vez de uma reforma estrutural profunda. O médico destacou que a integração de dados é uma continuidade de processos já iniciados e propôs o uso intensivo de inteligência artificial para a gestão de filas, como as de transplantes.
Outro ponto central na proposta do indicado de Flávio é o aproveitamento do mapeamento genético da população brasileira. Segundo Lottenberg, essa estratégia evitaria o desperdício de recursos públicos com fármacos desenvolvidos a partir de dados estrangeiros, que nem sempre apresentam a mesma eficácia para o perfil genético local. A ideia é otimizar o orçamento através de uma medicina mais personalizada e baseada em evidências nacionais.
Estratégias para o fortalecimento da rede pública
Do lado do governo, Alexandre Padilha focou na consolidação de programas em curso. O ministro citou o projeto Agora Tem Especialistas como um pilar para o futuro, reforçando a mudança no modelo de repasse financeiro aos prestadores de serviço. A proposta é que o pagamento seja realizado por “combos” de atendimento, que englobam desde o diagnóstico inicial até a conclusão do tratamento, reduzindo a fragmentação do cuidado.
Padilha também elencou prioridades como a expansão de unidades móveis para regiões remotas e o fortalecimento da rede nacional de oncologia. O ministro mencionou ainda a intenção de incorporar definitivamente ao SUS o uso de canetas emagrecedoras e ampliar protocolos específicos para idosos e mulheres na menopausa. Durante sua apresentação, Padilha não poupou críticas a cortes orçamentários realizados na gestão de Jair Bolsonaro, especialmente no programa Farmácia Popular, e condenou posturas contrárias à vacinação.
Relação profissional e o futuro do SUS
Embora representem campos opostos, a relação entre os dois nomes é marcada por um histórico de cordialidade. Interlocutores próximos ao ministro lembram que Lottenberg chegou a ser cotado para compor a chapa de Padilha na disputa pela prefeitura de São Paulo em 2014. No evento, não houve debate direto ou perguntas da plateia, limitando-se à exposição das propostas de cada lado.
O debate sobre o futuro da saúde pública no Brasil ganha contornos de urgência à medida que a população envelhece e a demanda por tecnologias de ponta cresce. O compromisso com a soberania na produção de insumos e a digitalização dos prontuários parece ser um consenso entre os especialistas, independentemente da orientação política dos presidenciáveis. O Conexrs segue acompanhando de perto os desdobramentos das propostas para o setor, mantendo o compromisso de levar até você uma análise aprofundada e contextualizada sobre os temas que impactam a vida dos brasileiros.
Fonte: redir.folha.com.br
