Comunidades quilombolas de Paracatu buscam reparação após duas décadas de conflito com mineradora

Comunidades quilombolas de Paracatu buscam reparação após duas décadas de conflito com mineradora

Direitos humanos

Duas décadas após o início de um processo de desterritorialização que fragmentou modos de vida ancestrais, cerca de 1,3 mil famílias quilombolas de Paracatu, em Minas Gerais, buscam na Justiça uma reparação histórica. O conflito, que envolve as comunidades Machadinho, Amaros e São Domingos, está no centro de uma complexa negociação mediada pelo Ministério Público Federal (MPF) com a multinacional canadense Kinross Gold Corporation, responsável pela exploração da mina Morro do Ouro.

Para famílias como a de Claudinês Lopes, de 32 anos, a luta não é apenas por valores financeiros, mas pelo reconhecimento de uma identidade que foi forçada ao deslocamento. Claudinês, que preside a associação de moradores do Quilombo do Machadinho, carrega o legado de sua avó, Antônia, que faleceu aos 99 anos sem ver o desfecho da disputa pela terra onde, outrora, cultivava o algodão para o sustento familiar.

Negociação por reparação socioambiental e territorial

O procurador regional da República, José Adércio Leite Sampaio, esteve em Paracatu na última semana para avançar nas tratativas de um acordo que contemple danos socioambientais, culturais e territoriais. A estratégia do MPF foca no reconhecimento oficial das comunidades, na garantia de direitos territoriais e na definição de critérios claros para indenizações e possíveis reassentamentos. O diálogo envolve diretamente cerca de 400 moradores do Machadinho, além das populações de Amaros e São Domingos.

O advogado Guilherme Bicalho, que representa as comunidades, aponta que o cenário jurídico é desafiador. Após um julgamento em agosto deste ano apresentar votos contrários às indenizações, o procurador solicitou a suspensão do processo por 60 dias para priorizar a via do acordo extrajudicial. A expectativa das partes envolvidas é que um entendimento definitivo seja alcançado até novembro, com valores estimados entre R$ 500 milhões e R$ 1,2 bilhão.

Impactos da mineração e riscos à saúde

Além da perda do território, a presença da mineradora impõe desafios diários aos moradores. O complexo de mineração em Paracatu opera com uma capacidade licenciada de 750 milhões de metros cúbicos de rejeitos, volume que, somado à Barragem Santo Antônio, totaliza 1,2 bilhão de metros cúbicos. A magnitude da estrutura gera preocupações constantes sobre a segurança e o impacto ambiental na região.

Relatórios técnicos do MPF indicam que a poeira resultante das operações industriais tem afetado diretamente a saúde da população local. Perícias detectaram níveis elevados de arsênio em amostras de urina de moradores e no material particulado em suspensão no ar. A situação é agravada pelo ruído constante das explosões e das operações da empresa, que, segundo relatos, é audível mesmo a quilômetros de distância das áreas de extração.

O longo caminho da regularização fundiária

A trajetória de resistência dessas comunidades é marcada por retrocessos institucionais. Embora Machadinho e Amaros tenham recebido certificação da Fundação Cultural Palmares em 2004, os processos de regularização iniciados pelo Incra no ano seguinte foram interrompidos pela ocupação das terras por parte da mineradora e pela ação de grileiros. Em 2014, uma decisão judicial chegou a desqualificar a existência de comunidades quilombolas na região, um marco que, segundo advogados, serviu para blindar a exploração mineral.

Atualmente, a disputa jurídica busca reverter essa invisibilidade. O advogado Guilherme Dolabella reforça que o Código de Mineração brasileiro estabelece a obrigatoriedade de indenização para proprietários e possuidores afetados pela atividade mineral. Enquanto a Justiça não profere uma decisão final, as famílias permanecem espalhadas por diferentes pontos da cidade e municípios vizinhos, vivendo em condições de vulnerabilidade que contrastam com o lucro líquido global da mineradora, que em 2025 alcançou US$ 2,39 bilhões.

O ConexRS segue acompanhando o desenrolar das negociações em Paracatu e os desdobramentos deste caso que coloca em xeque a relação entre o desenvolvimento industrial e os direitos de populações tradicionais. Nosso compromisso é manter você informado com reportagens pautadas pela ética, pela apuração rigorosa e pela valorização das vozes que buscam justiça social no Brasil.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br