Para milhares de moradores das comunidades ribeirinhas em Carauari, no interior do Amazonas, o acesso ao básico — como uma consulta de pré-natal ou o tratamento de um ferimento — sempre foi um desafio logístico extenuante. A rotina de quem vive na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari exigia, até recentemente, viagens fluviais que podiam durar dias, dependendo da cheia ou da seca dos rios, para alcançar a zona urbana. Esse cenário, porém, começou a mudar com a inauguração de dois novos pontos de atendimento à saúde nas bases da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), nas regiões de Campina e Bauana.
A logística do cuidado em regiões isoladas
A geografia da região impõe barreiras severas. Aldeniza Silva e Silva, grávida de sete meses, exemplifica a dificuldade enfrentada por gestantes locais. Antes da instalação do posto em Campina, ela precisava se deslocar até a cidade para realizar o acompanhamento médico. Devido à distância e ao custo do transporte fluvial, ela havia realizado apenas três consultas, quando o protocolo do Ministério da Saúde recomenda pelo menos seis. Agora, a realidade é outra: a distância foi reduzida para o que ela descreve como “só uma praia”, permitindo que o pré-natal siga o curso adequado sem a necessidade de viagens exaustivas.
O custo financeiro também é um fator determinante. Moradores relatam que o valor de uma “botija” de combustível para uma rabeta pode chegar a R$ 160 apenas para o trecho de ida, montante que muitas vezes dobra no retorno. A nova estrutura, que integra o projeto SUS na Floresta, visa justamente mitigar esses obstáculos, oferecendo suporte em áreas estratégicas para cerca de 4,7 mil pessoas distribuídas em 56 comunidades.
Tecnologia e integração com o SUS
Os novos pontos de atendimento não funcionam como estruturas isoladas, mas como extensões da rede pública. Equipados com consultórios para atendimentos presenciais e remotos, sala de triagem, consultório odontológico e conexão à internet, os locais permitem a aplicação da telessaúde. O modelo, viabilizado por uma parceria público-privada, é fruto do programa Juntos pela Saúde, executado pela FAS com apoio do BNDES e gestão do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS).
Guilherme Sylos, diretor de prospecção e parcerias do IDIS, enfatiza que o objetivo não é criar um sistema paralelo, mas fortalecer a rede existente. “Os profissionais responsáveis pelo atendimento estão vinculados à rede pública e à Estratégia Saúde da Família”, explica. Essa integração garante que o atendimento siga os protocolos do Sistema Único de Saúde (SUS), adaptando-se às especificidades culturais e geográficas da Amazônia.
Impacto imediato na rotina comunitária
A eficácia da medida pôde ser observada logo nos primeiros dias de operação. Em Campina, por exemplo, cinco chamadas de ambulanchas — as embarcações de resgate da prefeitura — foram evitadas. Casos como o do jovem Thiago Freitas Andrade, que sofreu um ferimento grave no pé, ilustram a importância da proximidade. Após uma semana de dores intensas, ele conseguiu receber cuidados imediatos de enfermagem e medicação, evitando um deslocamento de risco até a cidade.
Além de urgências, o atendimento foca na prevenção e no acompanhamento de doenças crônicas, como hipertensão, e na vacinação. O enfermeiro Antônio Carlos Alves Bezerra, que atua na unidade de Campina, destaca que a demanda é variada, indo desde casos de gripe em crianças até o suporte a ferimentos que, sem o posto, poderiam evoluir para quadros graves. A presença desses profissionais no território representa, para muitos ribeirinhos, a diferença entre o agravamento de uma enfermidade e a recuperação rápida dentro de sua própria comunidade.
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Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br
