Soja responsável registra alta expressiva, mas avanço depende de remuneração ao produtor

Soja responsável registra alta expressiva, mas avanço depende de remuneração ao produtor

Agro

A expansão da produção de soja responsável exige investimentos consistentes no campo, que precisam vir acompanhados de remuneração adequada, previsibilidade comercial e compromissos firmes de compra. A avaliação estratégica é defendida por Marina Muscolo, diretora-executiva da Mesa Redonda da Soja Responsável (RTRS), ao apontar que a distribuição justa dos custos e dos benefícios da sustentabilidade representa um dos maiores desafios para consolidar a certificação em âmbito global.

De acordo com os dados oficiais divulgados pela entidade, o volume total de soja certificada pela RTRS atingiu 11,2 milhões de toneladas em 2025, estabelecendo um recorde expressivo que representa um avanço de 80% em comparação ao ano anterior. Paralelamente, o consumo global de material certificado chegou a 8,1 milhões de toneladas, registrando um crescimento de 8,1% no mesmo período analisado.

Desafios para ampliar o alcance global da certificação

Apesar dos inegáveis avanços tecnológicos, do aprimoramento contínuo do monitoramento ambiental e da criação de padrões rigorosos de produção responsável, a certificação ainda abrange uma parcela bastante restrita da colheita mundial de grãos. Durante a Conferência Internacional da RTRS de 2026, o especialista em inovação e pensamento sistêmico Mark Stevenson apresentou estimativas indicando que a soja certificada pelo padrão RTRS corresponde a cerca de 1,9% de toda a produção global.

Esse percentual restringe-se especificamente ao padrão da RTRS, embora existam outras iniciativas voltadas à sustentabilidade no mercado internacional. Para Marina Muscolo, o cenário evidencia o tamanho do desafio para ampliar o alcance das práticas verificadas de manejo e cultivo responsável, superando barreiras estruturais e econômicas que ainda limitam a adesão em larga escala.

Investimentos na propriedade e retorno econômico

A obtenção e a manutenção anual da certificação exigem recursos financeiros significativos para realizar adequações estruturais nas propriedades rurais, organizar documentações complexas, passar por auditorias rigorosas e aprimorar os processos de gestão. Na visão da diretora-executiva, esses investimentos precisam resultar em vantagens comerciais concretas para quem trabalha diretamente na terra.

Compradores, tradings e indústrias processadoras devem colaborar ativamente oferecendo remuneração diferenciada e mecanismos contrabalançados que garantam maior estabilidade. Sem esse equilíbrio financeiro fundamental, o crescimento isolado da oferta corre o risco de encontrar sérias dificuldades para se sustentar a longo prazo.

Inclusão de pequenos agricultores e novas exigências de mercado

A inclusão produtiva de agricultores de menor escala ocupa um papel central nesse debate econômico. Conforme levantamento da RTRS, mais de 90% dos produtores certificados pela organização são pequenos agricultores, somando mais de 84 mil produtores concentrados principalmente na Índia e em Uganda. A certificação em grupo surge como ferramenta essencial para reduzir barreiras e adaptar os protocolos produtivos.

Além disso, mudanças regulatórias no comércio internacional, a exemplo do Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), elevam o rigor sobre a rastreabilidade. Embora ferramentas digitais e imagens de satélite ajudem a monitorar o uso da terra, a executiva ressalta que atender a exigências legais, por si só, não substitui a necessidade de cooperação financeira e estrutural entre todos os elos da cadeia global da soja.