Em um marco histórico para a diplomacia brasileira, o Palácio Itamaraty, em Brasília, celebrou a posse de representantes de povos originários e comunidades tradicionais na carreira de Estado. Os indígenas Marcelo Kariri Menezes, do povo Kariri, e Idjahure Terena, do povo Terena, integraram o grupo empossado nesta quarta-feira (4), marcando a primeira vez que membros dessas comunidades ingressam no curso de Formação de Diplomatas do Instituto Rio Branco, vinculado ao Ministério das Relações Exteriores.
A conquista representa uma mudança estrutural na composição do corpo diplomático do país, historicamente elitista e restrito. Os novos profissionais farão parte da turma que inicia sua formação em 2026 com conclusão prevista para 2028, tendo superado o concorrido Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD). O processo seletivo contou com políticas de cotas e ações afirmativas amparadas pelo Estatuto da Igualdade Racial.
Diversidade ampliada no Instituto Rio Branco
A turma recente reflete uma abertura sem precedentes para grupos historicamente subrepresentados nos espaços de poder e decisão internacional. Do total de aprovados que compõem o ciclo de formação, quase metade das vagas foi ocupada por minorias sociais e raciais, incluindo dezenas de pessoas negras, indivíduos com deficiência e uma representante quilombola, além dos dois diplomatas indígenas.
Além da inclusão étnica e racial, a seleção bateu recorde histórico na proporção de gênero. As mulheres alcançaram 45% das vagas da turma, consolidando uma tendência de paridade e representatividade que vem sendo estimulada por movimentos sociais e acadêmicos na última década.
Repercussão institucional e o conceito de aldear o Estado
Durante a cerimônia oficial de recepção realizada nesta quinta-feira (5), a ministra interina das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, pontuou que a presença de novos perfis na instituição secular é fundamental para que a diplomacia espelhe a pluralidade da sociedade brasileira. Para a pasta, a abertura de portas para lideranças diversas fortalece a imagem do país no exterior.
O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, definiu o momento como a materialização do conceito de “Aldear o Estado”. Segundo ele, inserir lideranças originárias em estruturas técnicas capazes de influenciar diretrizes geopolíticas repara séculos de invisibilidade e exclusão social vividas pelos povos tradicionais no território nacional.
Trajetórias acadêmicas e barreiras superadas
Os novos diplomatas acumulam currículos de excelência acadêmica construídos em universidades públicas e privadas de destaque no país. Marcelo Kariri é engenheiro elétrico graduado pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), possui MBA em Digital Business e construiu carreira técnica antes de migrar para a diplomacia. Já Idjahure Terena é doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A inserção desses profissionais ocorre em um contexto demográfico expressivo. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022, o Brasil abriga mais de um milhão de indígenas de centenas de etnias diferentes, além de dezenas de milhões de cidadãos negros e pardos, cuja representação institucional começa a ecoar com mais força nos altos escalões da República.

